FIO DE PRUMO

Perspetivas honestas sobre o mercado imobiliário.

Análise, opinião e informação prática sobre comprar, vender e investir em Lisboa, sem otimismos exagerados nem linguagem de vendedor.

O homem que inventou a Lisboa que conhecemos.
Ana Almeida Ana Almeida

O homem que inventou a Lisboa que conhecemos.

Há uma experiência que toda a gente que vive em Lisboa faz todos os dias sem saber o nome de quem a tornou possível. Caminhar pela Avenida da Liberdade. Atravessar a Praça Marquês de Pombal. Descer a Avenida da República. Entrar no Parque Eduardo VII. Circular pelos bairros de Campo de Ourique ou da Estefânia. Apanhar o eléctrico na Almirante Reis. Tudo isto é Ressano Garcia.

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Distrate. A palavra que aparece nos documentos e que ninguém explicou antes.
Ana Almeida Ana Almeida

Distrate. A palavra que aparece nos documentos e que ninguém explicou antes.

Há um momento num processo de compra de casa que produz uma reacção específica em muitos compradores: o momento em que aparece pela primeira vez a palavra distrate num documento e ninguém à volta parece achar que precisa de ser explicada. O advogado usa-a com a naturalidade de quem assume que toda a gente sabe o que significa. O consultor menciona-a de passagem. E o comprador acena com a cabeça e decide perguntar mais tarde.

A palavra merece uma explicação que raramente chega a tempo.

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O lugar onde Lisboa decidiu ser outra coisa.
Ana Almeida Ana Almeida

O lugar onde Lisboa decidiu ser outra coisa.

Há um momento que quase toda a gente que visita a Fundação Calouste Gulbenkian pela primeira vez experimenta e que é difícil de nomear com precisão. É o momento em que se entra no jardim vindo da rua e se percebe que se está noutro lugar. Não noutro lugar da cidade. Noutro tipo de lugar. A rua fica para trás, o ruído diminui, a escala muda, e o que aparece à frente é uma paisagem que não parece ter sido construída mas que foi, de facto, pensada e plantada e desenhada com uma atenção ao detalhe que a naturalidade do resultado esconde completamente.

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O arquitecto que veio da Hungria e deixou marca em cada esquina de Lisboa.
Ana Almeida Ana Almeida

O arquitecto que veio da Hungria e deixou marca em cada esquina de Lisboa.

Há uma figura na história da arquitectura de Lisboa que existe num espaço curioso: demasiado importante para ser ignorada, demasiado eclipsada para ser conhecida. Carlos Mardel chegou a Portugal em 1733, vindo da Hungria, com a patente de capitão engenheiro e com uma formação que incluía uma passagem por França que se iria revelar determinante para o que viria a fazer em Lisboa. Morreu em 1763, trinta anos depois de chegar, tendo deixado na cidade uma marca que se vê todos os dias sem que quase ninguém saiba o nome de quem a pôs ali.

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Comprar com procuração. O que ninguém explica antes de o problema aparecer.
Ana Almeida Ana Almeida

Comprar com procuração. O que ninguém explica antes de o problema aparecer.

Há situações em que comprar uma casa sem estar presente na escritura é não apenas possível mas necessário. O comprador está no estrangeiro. A agenda não permite a deslocação. O processo tem urgência e o prazo não espera. A solução que o mercado apresenta nestas situações é a procuração: um documento que autoriza outra pessoa a agir em nome do comprador, a assinar o que precisa de ser assinado, a fechar o que precisa de ser fechado.

É uma solução legítima, regulada, e com décadas de utilização no mercado imobiliário português. É também uma solução que, quando usada sem o conhecimento necessário, expõe o comprador a riscos que nenhum entusiasmo pela casa devia fazer ignorar.

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O Kremlin de Lisboa.
Ana Almeida Ana Almeida

O Kremlin de Lisboa.

Há edifícios que se justificam pela sua função e há edifícios que se justificam pela sua forma. A Praça de Touros do Campo Pequeno pertence à segunda categoria com uma convicção que o tempo não diminuiu. Inaugurada em 1892, classificada por um cronista da época como um casarão bárbaro com cenográfico luxo mourisco, e apelidada por outros de Kremlin de Lisboa pelas cúpulas que dominam a sua silhueta, é um edifício que nunca passou despercebido e que nunca procurou passar.

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O arquitecto que construiu Lisboa e a quem Lisboa nunca agradeceu.
Ana Almeida Ana Almeida

O arquitecto que construiu Lisboa e a quem Lisboa nunca agradeceu.

Há uma injustiça histórica que atravessa séculos e que qualquer pessoa que caminhe pela Baixa de Lisboa devia conhecer. A cidade que existe entre o Rossio e o Tejo, com as suas ruas em grelha ortogonal, os seus edifícios de fachadas uniformes, a sua relação monumental com o rio, a sua rede de esgotos que foi inovação europeia no século XVIII, a sua estrutura antisísmica que os engenheiros modernos só descobriram quando abriram as paredes dos edifícios dois séculos depois, foi concebida por um homem cujo nome quase ninguém conhece.

Esse homem era Eugénio dos Santos.

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As zonas de Lisboa que ainda não explodiram. E o que significa explodir.
Ana Almeida Ana Almeida

As zonas de Lisboa que ainda não explodiram. E o que significa explodir.

Há uma expressão que circula no mercado imobiliário lisboeta com uma regularidade que já devia ter levantado mais sobrancelhas do que levantou. A expressão é esta: aquela zona vai explodir.

Diz-se de bairros que estão em transformação, de zonas que têm potencial não realizado, de localizações onde os preços ainda não reflectem o que a zona vai ser. Diz-se com a convicção de quem conhece o mercado e com a vagueza de quem prefere não ser específico sobre datas.

Vale a pena perceber o que a expressão significa de facto antes de a usar como argumento de compra.

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O parque que Lisboa demorou sessenta anos a terminar.
Ana Almeida Ana Almeida

O parque que Lisboa demorou sessenta anos a terminar.

Há espaços na cidade que existem de forma tão natural, tão integrada no quotidiano de quem os usa, que é difícil imaginar que não foram sempre assim. O Parque Eduardo VII é um deles. Quem sobe aquela alameda central de relva em direcção ao miradouro do norte, com Lisboa a abrir-se para o Tejo em baixo, tem a sensação de um espaço que sempre existiu desta forma, com esta escala, com esta relação com a cidade.

Não existiu. E demorou muito mais tempo do que devia a chegar ao que é hoje.

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O arquitecto que Portugal não soube onde pôr.
Ana Almeida Ana Almeida

O arquitecto que Portugal não soube onde pôr.

Raul Lino nasceu em Lisboa em 1879 e morreu na mesma cidade em 1974. Noventa e cinco anos de vida atravessaram a monarquia constitucional, a república, o Estado Novo, e o início da democracia. Autor de mais de 700 projectos arquitectónicos, foi simultaneamente considerado conservador e revolucionário, ousado e tradicionalista, uma contradição que diz menos sobre ele do que sobre a dificuldade que Portugal sempre teve em lidar com quem não cabia numa categoria simples.

A história de Raul Lino é a história de um homem que passou a vida a defender uma ideia que o país adoptou mal, celebrou pela razão errada, e rejeitou pela razão errada.

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Há uma idade em que se deixa de querer o novo e se começa a querer o verdadeiro.
Ana Almeida Ana Almeida

Há uma idade em que se deixa de querer o novo e se começa a querer o verdadeiro.

Não acontece de um dia para o outro. Não há um momento específico em que se acorda diferente. Há um acumular de experiências que vai mudando silenciosamente o que se procura, até ao dia em que se entra numa daquelas casas antigas com tecto alto e soalho que range e luz que entra de uma forma que nenhum arquitecto consegue projectar de raiz, e se percebe que é ali que se quer estar.

É uma mudança que quase toda a gente faz e que quase ninguém admite ter feito de forma consciente.

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O angariador que não conhece a casa que está a vender não está a fazer o seu trabalho. Está a ocupar espaço.
Ana Almeida Ana Almeida

O angariador que não conhece a casa que está a vender não está a fazer o seu trabalho. Está a ocupar espaço.

Há uma cumplicidade silenciosa no mercado imobiliário português que toda a gente conhece e ninguém nomeia. O angariador que coloca uma casa no mercado sem a conhecer de verdade, que assinou o contrato de mediação imobiliária, tirou fotografias ou contratou quem as tirasse, publicou o anúncio, e ficou à espera que o telefone tocasse.

É a versão mais comum do trabalho de angariação em Portugal. E é uma forma de representação que serve o angariador e não serve o proprietário que confiou nele.

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O preço que ninguém sabe como chegar.
Ana Almeida Ana Almeida

O preço que ninguém sabe como chegar.

Há um momento no processo de avaliação de uma casa histórica que nenhum método de avaliação convencional consegue resolver de forma satisfatória. É o momento em que se tem de traduzir em número aquilo que, por definição, não tem equivalente directo no mercado. Uma casa com elementos irrepetíveis, numa localização singular, com uma história que a diferencia de qualquer comparável que se possa encontrar, e com características que alguns compradores vão valorizar extraordinariamente e outros vão ignorar completamente.

Este momento é simultaneamente o mais importante e o mais desconfortável de todo o processo.

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O condomínio que ninguém leu antes de comprar.
Ana Almeida Ana Almeida

O condomínio que ninguém leu antes de comprar.

Há um documento que existe em todos os edifícios em regime de propriedade horizontal e que contém mais informação relevante sobre o que se está a comprar do que qualquer fotografia, qualquer visita, e qualquer conversa com o consultor que representa o vendedor. Esse documento é o regulamento de condomínio. E a esmagadora maioria dos compradores nunca o leu antes de assinar a escritura.

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Vender uma casa herdada é o processo imobiliário mais difícil que existe.
Ana Almeida Ana Almeida

Vender uma casa herdada é o processo imobiliário mais difícil que existe.

Não pela complexidade legal. Pela complexidade emocional que contamina todas as decisões, atrasa todos os processos, e produz resultados financeiros que a família raramente reconhece como consequência das suas próprias dinâmicas.

A casa herdada chega ao mercado carregada com tudo o que aconteceu dentro dela. Não apenas no sentido patrimonial, que é o que o mercado vê, mas no sentido humano, que é o que o mercado não consegue gerir e que ninguém menciona nas reuniões onde se discute o preço e a estratégia de venda.

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O azulejo que ninguém sabe datar.
Ana Almeida Ana Almeida

O azulejo que ninguém sabe datar.

Quando se entra numa casa histórica em Lisboa pela primeira vez, há elementos que toda a gente vê e elementos que quase ninguém sabe ler. A maioria das pessoas vê os azulejos. Poucos sabem o que estão a ver.

Não é uma questão de gosto estético. É uma questão de conhecimento que o mercado imobiliário não transmite porque não tem obrigação de o fazer, e que pode representar uma diferença significativa no valor real do que se está a comprar, ou no custo de destruir algo que não se sabia que existia.

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A casa que toda a gente quer vender mas ninguém quer comprar.
Ana Almeida Ana Almeida

A casa que toda a gente quer vender mas ninguém quer comprar.

Existe no mercado imobiliário de Lisboa um conjunto de casas que toda a gente conhece. Não por serem famosas nem por terem qualquer notoriedade particular. Por estarem no mercado há tempo suficiente para que qualquer pessoa que trabalhe activamente neste sector as tenha visto, visitado, ou pelo menos reconheça o anúncio quando aparece novamente, porque aparece sempre.

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O que o banco avalia e o que a casa vale são coisas completamente diferentes.
Ana Almeida Ana Almeida

O que o banco avalia e o que a casa vale são coisas completamente diferentes.

Há um momento no processo de compra que produz mais confusão, mais ansiedade, e mais decisões erradas do que qualquer outro. Não é a negociação do preço. Não é a assinatura do contrato promessa. É o resultado da avaliação bancária.

O comprador fez uma oferta. O vendedor aceitou. O preço está acordado. E depois chega um número do banco que é diferente, frequentemente mais baixo, do preço que as duas partes consideraram justo. E tudo para.

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Porque é que as melhores casas de Lisboa não deveriam estar nos portais de anúncios.
Ana Almeida Ana Almeida

Porque é que as melhores casas de Lisboa não deveriam estar nos portais de anúncios.

Há uma prática no mercado imobiliário de luxo que revela, mais do que qualquer outro indicador, se quem está a gerir a venda percebe o que tem nas mãos. Essa prática é colocar uma casa histórica excepcional num portal de anúncios, com fotografias de grande angular, preço público, e disponibilidade para visitas de qualquer pessoa que preencha um formulário.

Não é ilegal. Não é tecnicamente errado. É simplesmente a abordagem errada para aquele activo, e quem a adopta está a dizer, sem o saber, que não percebe a diferença entre vender um T2 em Arroios e vender uma casa com duzentos anos de história numa das ruas mais antigas de Lisboa.

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