Chamar de luxo a qualquer coisa que custe acima de um milhão de euros é um atentado ao bom gosto, à elegância e, sobretudo, à qualidade — que essa não é subjectiva
Chegámos a um ponto no mercado imobiliário português em que o preço se tornou o único critério de classificação. Um imóvel custa um milhão? É luxo. Custa dois? É luxo premium. Custa cinco? É ultra-luxo. A linguagem inflacionou ao mesmo ritmo que os preços, e ninguém parece incomodado com isso.
Eu estou.
Luxo não é um escalão de preço. Nunca foi. O preço é uma consequência, da raridade, da qualidade, da mestria, do tempo que levou a fazer bem. Quando o preço deixa de ser consequência e passa a ser definição, perdemos a capacidade de distinguir o que tem valor do que tem apenas um número elevado na ficha técnica.
Há apartamentos a vender por um milhão e duzentos mil euros em Lisboa com soalho flutuante. Com portas ocas que ressoam quando se batem. Com casas de banho onde o mármore é uma película sobre aglomerado. Isso não é luxo. É um imóvel caro. São coisas muito diferentes.
O bom gosto tem critério. A elegância tem escala, proporção, coerência. E a qualidade, e é aqui que não aceito o relativismo que tanto convém a quem vende, a qualidade não é subjectiva.
Uma junta de dilatação mal executada é má qualidade. Uma esquadria que não fecha a direito é má qualidade. Um isolamento acústico que deixa ouvir o elevador no quarto principal é má qualidade. Estas coisas não dependem do gosto de ninguém.
O meu trabalho existe, em parte, para que o comprador não pague por uma ilusão. Luxo real é raro, é caro, e merece o nome. O resto é marketing com um preço alto.