Prefiro uma casa antiga bem recuperada num prédio de traça a uma nova num condomínio no meio da cidade

Sei que esta opinião não é consensual. Sei que há compradores para quem o novo é sinónimo de segurança, de garantia, de ausência de surpresas. Respeito essa lógica. Simplesmente não a partilho.

Quando entro num apartamento novo num condomínio fechado no centro de Lisboa, vejo o que foi possível fazer dentro de uma equação financeira muito precisa: margem do promotor, custo do terreno, custo da construção, preço de venda esperado. Vejo o resultado de uma negociação entre o que devia ser e o que era viável. Vejo tetos a 2,60 metros porque a regulamentação o permite e porque cada centímetro a mais custa dinheiro. Vejo materiais escolhidos para durar o suficiente para que a garantia expire sem problemas.

Quando entro num prédio de traça bem recuperado, e sublinho o bem recuperado, porque isso é tudo, entro em algo que ninguém consegue construir hoje. Não por falta de vontade. Por impossibilidade física.

Não se fabricam pés-direitos de quatro metros. Não se instalam de raiz soalhos de pinho com cem anos de vida que amadureceram até à cor e à textura que têm hoje. Não se reconstroem estuques de tecto com aquele detalhe, aquela escala, aquela relação com a luz natural que muda ao longo do dia de uma forma que nenhum candeeiro de design consegue imitar.

A raridade é a base do valor no luxo real. E o que é verdadeiramente raro em Lisboa não é o condomínio com porteiro e ginásio. É o andar nobre com tecto trabalhado, janelas de sacada sobre uma rua com árvores, e uma recuperação que respeitou o que ali estava em vez de o apagar.

O condomínio novo no meio da cidade será sempre possível de construir. O prédio de traça com aquele pé-direito, naquele bairro, naquele andar, com aquela luz, esse não volta a existir.

Quando ajudo um comprador a escolher entre os dois, é esta a conversa que fazemos. Não sobre o preço por metro quadrado. Sobre o que vai existir daqui a vinte anos e o que não vai.

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