As casas nunca estiveram tão caras. Mas o problema não é o preço das casas.

Há uma narrativa que domina todas as conversas sobre o mercado imobiliário português. Está nos jornais, está nas redes sociais, está nas reuniões de família ao domingo. As casas estão caríssimas. Os jovens não conseguem comprar. Lisboa tornou-se inacessível. O mercado enlouqueceu.

É verdade. E é simultaneamente a pergunta errada.

Porque o preço de uma casa não existe no vácuo. Existe em relação a alguma coisa. Em relação ao rendimento de quem compra. Em relação ao crédito disponível. Em relação ao que custa viver noutros sítios comparáveis. Em relação ao que custava há vinte anos quando os salários eram outros, a inflação era outra, e Portugal era outro.

E quando se faz essa relação, quando se para de olhar para o preço absoluto e se começa a olhar para o preço relativo, a pergunta muda completamente.

Não é: porque é que as casas estão tão caras?

É: porque é que os salários ficaram para trás?

Portugal tem um problema estrutural de produtividade e de valorização do trabalho que existe há décadas e que nunca foi resolvido com seriedade. Um problema que foi tapado, durante anos, pelo custo de vida baixo, que tornava o país funcionalmente acessível mesmo com salários que não resistem a comparação europeia.

Esse amortecedor desapareceu.

O custo de vida em Lisboa aproximou-se das capitais europeias. Os salários não. E o resultado é uma cidade, e um país, onde a equação que funcionava para a geração anterior simplesmente deixou de fechar. Não porque as casas tenham enlouquecido. Porque o resto nunca acompanhou.

Há ainda outro factor que a narrativa conveniente ignora.

O dinheiro que entrou em Portugal na última década, o turismo, o alojamento local, o golden visa, o residente não habitual, o capital estrangeiro à procura de um mercado ainda barato em termos europeus, esse dinheiro não criou riqueza distribuída. Criou valorização de ativos. E a valorização de ativos beneficia quem já tem ativos.

Quem já tinha casa ficou mais rico. Quem ainda não tinha ficou mais longe de ter.

Não é uma conspiração. É uma mecânica simples que acontece em todos os mercados onde o capital circula mais depressa do que os salários crescem. Aconteceu em Londres. Aconteceu em Amesterdão. Aconteceu em Lisboa com um atraso de vinte anos e uma velocidade que não deu tempo a ninguém de se preparar.

As casas estão caras. Isso é real e tem consequências humanas sérias que não merecem ser minimizadas.

Mas chamar ao problema "casas caras" é uma forma confortável de não chamar pelo nome certo. O nome certo é empobrecimento relativo. É uma economia que cresceu de forma assimétrica, que valorizou o metro quadrado sem valorizar proporcionalmente quem trabalha dentro dele.

A casa não ficou inacessível porque o mercado enlouqueceu.

Ficou inacessível porque durante décadas se normalizou pagar mal, crescer pouco e exportar talento, e a conta chegou toda de uma vez, embrulhada numa fotografia de Lisboa bonita e num preço por metro quadrado que ninguém consegue pagar.

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