Reabilitação de fachada vs. reabilitação real — o que os projectos não mostram nas fotografias

Portugal ficou muito bom a reabilitar fachadas.

Aprendemos a limpar a pedra, a restaurar as cantarias, a pintar os caixilhos de branco para que as fotografias fiquem bonitas no Instagram e nos portais imobiliários. Ficámos particularmente bons a criar a sensação de que o edifício foi recuperado com respeito, com critério, com amor ao detalhe histórico.

O que frequentemente ficou por fazer está dentro das paredes.

Falo de instalações eléctricas que foram "actualizadas" mas não substituídas de raiz. De canalizações envelhecidas que correram por baixo de novos pavimentos sem serem tocadas. De isolamento térmico e acústico que não cumpre o que a memória descritiva promete porque o promotor calculou bem a margem e percebeu onde podia cortar sem que ninguém, visualmente, desse por isso.

A reabilitação real é mais cara. Muito mais. Implica abrir paredes, implica surpresas desagradáveis a meio da obra, implica prazos que se esticam e orçamentos que rebentam. Implica, sobretudo, uma decisão de princípio: este edifício vai ser reconstruído por dentro, não apenas maquilhado por fora.

Há projectos assim em Portugal. Existem promotores que trabalham desta forma, que escolhem os materiais com critério, que chamam os especialistas certos e lhes dão tempo e orçamento para fazer bem. São a excepção.

A minha função, quando acompanho um comprador numa casa reabilitada, é precisamente distinguir uns dos outros. Porque a fachada, por si só, não me diz nada. O que me interessa é o que está por detrás dela.

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