Tens uma avaliação bancária. Isso não significa que sabes o preço da tua casa.

Há uma confusão que encontro regularmente. O proprietário tem uma avaliação feita por um perito certificado, encomendada pelo banco, com um número oficial lá dentro. E assume que esse número é o preço a que deve vender.

Não é.

A avaliação bancária e a análise comparativa de mercado são dois instrumentos diferentes, com objectivos diferentes, produzidos por pessoas diferentes, para fins completamente distintos. Confundi-los tem um custo — e esse custo paga-o o vendedor.

O que é uma avaliação por perito

A avaliação por perito é um documento técnico produzido por um avaliador certificado, enquadrado nas normas do Banco de Portugal, destinado a proteger o banco. Não o vendedor. O banco.

O perito visita o imóvel, analisa as características físicas, compara com transacções registadas na base de dados oficial, aplica coeficientes técnicos e produz um número que reflecte o valor de mercado num determinado momento — com uma margem de prudência que serve os interesses do credor.

É um trabalho rigoroso. É um documento necessário. Mas responde à pergunta do banco: quanto vale este imóvel como garantia?

Não responde à pergunta do vendedor: a quanto posso vender esta casa hoje, neste mercado, para este perfil de comprador?

O que é uma análise comparativa de mercado

A análise comparativa de mercado — a que eu faço quando preparo uma estratégia de venda — responde a essa segunda pergunta.

Não parte de bases de dados de transacções passadas. Parte do mercado activo: o que está à venda agora, a que preço, há quanto tempo, e o que isso revela sobre a disposição real dos compradores neste momento.

Analisa o que vendeu recentemente na mesma zona, em condições comparáveis, e a que preço real — não ao preço pedido, que raramente é o preço de fecho. Considera o estado actual do mercado: está a absorver casas depressa ou devagar? Os compradores estão a negociar muito ou pouco? Há escassez de oferta neste segmento ou excesso?

E considera factores que nenhuma base de dados captura: a exposição solar, a qualidade dos acabamentos, a gestão do condomínio, a vista, o ruído, a comunidade de residentes. Coisas que fazem um comprador decidir em dois minutos que quer aquela casa — ou que prefere a outra.

Porque é que a confusão tem um custo

O perito avalia com prudência. O banco precisa de uma margem de segurança. Por isso, a avaliação bancária tende a ficar abaixo do valor de mercado real — especialmente em segmentos de luxo, onde a raridade e os intangíveis pesam mais do que qualquer tabela.

O vendedor que usa a avaliação bancária como referência de preço está a deixar dinheiro em cima da mesa.

O vendedor que usa a avaliação bancária como piso mínimo e faz uma análise comparativa séria por cima percebe exactamente onde pode posicionar a casa, com que argumentos, para que perfil de comprador, e em que prazo realista.

São instrumentos complementares. Mas não são a mesma coisa.

A pergunta certa antes de colocar a casa no mercado

Não é quanto vale a minha casa? Qualquer perito te responde a isso.

É a quanto posso vender, para quem, em quanto tempo, e o que preciso de fazer para chegar lá?

Essa resposta não vem de uma avaliação. Vem de uma estratégia.

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