Estás a pagar a comissão — ou a financiar o conteúdo?
Deixa-me descrever-te uma cena.
É segunda-feira de manhã. O teu consultor imobiliário está a fazer um reel. Está a filmar o carro. Depois o café. Depois os sapatos. Depois uma frase sobre mindset e sucesso colada por cima de uma fotografia de Lisboa com filtro alaranjado. Trinta mil seguidores. Quatrocentos likes. Nos comentários, outros consultores imobiliários a dizer "🔥🔥 inspirational".
Entretanto, o teu processo está parado há três dias à espera de um documento que ninguém tratou.
O consultor-influencer não é um fenómeno inocente. É uma confusão antiga com distribuição nova, e um algoritmo que a amplifica até parecer normal.
O que ele vende não é serviço. É identidade. A ideia de que trabalhar com ele te coloca num certo patamar. Que os prémios emoldurados no escritório de vidro, atribuídos pela marca aos seus próprios agentes, num sistema de recompensa que serve mais o recrutamento do que o cliente, significam alguma coisa sobre o que vai acontecer ao teu processo.
Não significam.
O ranking de melhor consultor mede volume. Mede dinheiro que passou pelas mãos de alguém. Não mede se atendeu quando precisavas. Não mede se te disse a verdade quando a verdade era inconveniente. Não mede se estavas a ser acompanhado ou gerido, que são coisas muito diferentes, e que só percebes a diferença quando o processo complica.
E o processo complica sempre.
Há outro tipo de consultor. Que não vou romantizar demasiado porque a santidade fica mal em qualquer profissão.
Mas há quem esteja no imobiliário porque genuinamente gosta do que é difícil nisto. Da negociação que não tem manual. Do processo que corre mal a meio e precisa de alguém que já viu aquilo antes e sabe exatamente onde pressionar. Da família que não sabe o que quer até alguém fazer as perguntas certas.
Esse consultor pode ter prémios. Pode não ter nenhum. Pode ter dez mil seguidores ou duzentos. Pode trabalhar numa marca grande ou por conta própria.
O que tem, sem excepção, é algo muito menos fotogénico: a disponibilidade real de estar presente quando o negócio está prestes a cair, não a gerir a narrativa, não a produzir conteúdo, não a construir uma marca pessoal que o sobreviva.
A estar lá.
A vaidade tem um preço. No imobiliário paga-se duas vezes, uma na comissão, outra quando percebes o que estavas realmente a financiar.
A pergunta que devias fazer antes de escolher não é quantos prémios tem. É esta: quando isto complicar, e se puder, vai complicar, este consultor vai estar a resolver o meu problema ou a filmar o momento para os stories?