O lugar onde Lisboa decidiu ser outra coisa.

Há um momento que quase toda a gente que visita a Fundação Calouste Gulbenkian pela primeira vez experimenta e que é difícil de nomear com precisão. É o momento em que se entra no jardim vindo da rua e se percebe que se está noutro lugar. Não noutro lugar da cidade. Noutro tipo de lugar. A rua fica para trás, o ruído diminui, a escala muda, e o que aparece à frente é uma paisagem que não parece ter sido construída mas que foi, de facto, pensada e plantada e desenhada com uma atenção ao detalhe que a naturalidade do resultado esconde completamente.

É um dos maiores sucessos desta obra: não parecer o que é.

A história começa com um homem improvável. Calouste Sarkis Gulbenkian nasceu em Istambul em 1869, de família arménia, formou-se em engenharia em Londres, tornou-se britânico em 1902, e construiu uma das maiores fortunas privadas do século XX como intermediário nas negociações petrolíferas do Médio Oriente. A sua participação de cinco por cento em cada contrato que negociou valeu-lhe o apelido de Senhor Cinco Por Cento, um alcunha que combina a admiração pelo génio negocial com a frieza de quem prefere percentagens a nomes.

Ao longo de décadas, enquanto negociava petróleo e acumulava riqueza, Gulbenkian comprava arte. Não ao acaso nem por ostentação. Com um método e um critério que os historiadores de arte confirmam: cada peça tinha anotações suas, cada aquisição era precedida de estudo, cada objecto tinha uma razão de existir na sua colecção que ia além do preço ou do prestígio. Reuniu ao longo da vida cerca de seis mil peças de arte egípcia, greco-romana, islâmica, arménia, extremo-oriental, europeia dos séculos XVII a XX, e uma colecção de René Lalique considerada única no mundo pela qualidade e quantidade das peças adquiridas directamente ao artista.

Em 1942, fugindo das complicações da Segunda Guerra Mundial, chegou a Lisboa. Ficou. Morreu aqui em 1955, no Hotel Aviz, com oitenta e cinco anos. No testamento que deixou, determinou que a sua fortuna, a sua colecção, e o seu nome serviriam para criar uma fundação internacional de utilidade pública, com sede em Lisboa, cidade que o tinha acolhido quando a Europa estava em guerra.

Era um gesto de gratidão invulgar. E a dimensão do gesto transformou para sempre o que Lisboa podia oferecer em termos culturais.

A Fundação Calouste Gulbenkian foi criada formalmente em 1956. Em 1957, adquiriu o terreno onde se instalaria, uma antiga quinta de recreio que no século XVIII tinha sido uma das portas da cidade, depois transformada no Parque de Santa Gertrudes, com uma estrutura de parque paisagista que um jardineiro suíço chamado Jacob Weiss tinha desenhado para Eugénio de Almeida em 1866. O carácter de parque que esse jardim já tinha quando a Fundação o comprou foi determinante para o que se seguiu.

Em 1959, a Fundação lançou um concurso restrito, por convite, a três equipas de arquitectos. O júri era internacional e incluía nomes como o arquitecto britânico Sir Leslie Martin e o italiano Franco Albini, além de Francisco Keil do Amaral como consultor português. As três equipas trabalharam durante meses com o mesmo programa e o mesmo terreno. A equipa vencedora foi a de Ruy Jervis d'Athouguia, Pedro Cid e Alberto Pessoa, que trabalhou em paralelo com os arquitectos paisagistas Gonçalo Ribeiro Telles e António Viana Barreto para garantir que a arquitectura e o jardim fossem concebidos como um único projecto e não como dois projectos separados.

Esta decisão, de incluir os arquitectos paisagistas no concurso desde o início e de tratar o jardim como parte inseparável do conjunto, foi a que mais definiu o resultado final. E é a razão pela qual o que existe em Palhavã é diferente de quase tudo o que a arquitectura moderna portuguesa produziu.

A construção começou em 1962. O edifício foi inaugurado em 2 de Outubro de 1969, exactamente cem anos depois do nascimento de Calouste Gulbenkian.

O que os três arquitectos criaram foi um conjunto de edifícios horizontais, baixos, sóbrios nos materiais, essencialmente betão e vidro, que se recusam a impor-se à paisagem e que em vez disso se integram nela, se inserem no terreno, criam uma relação com o jardim que as fachadas de vidro tornam permanentemente visível do interior. A decisão de não construir em altura, numa época em que a torre era o símbolo de modernidade que a arquitectura internacional mais usava, foi deliberada e reveladora: os arquitectos perceberam que o valor daquele lugar estava na horizontalidade, no diálogo entre construído e natural, e que qualquer gesto vertical destruiria esse equilíbrio.

Os princípios que guiaram o projecto foram definidos com uma clareza pouco comum: espiritualidade, criatividade e simplicidade. Não como palavras de brochura, mas como decisões de projecto. A espiritualidade na relação com a luz e com o silêncio que os espaços interiores procuram. A criatividade na forma como o programa cultural foi organizado para permitir que os públicos fluíssem livremente entre auditórios, galerias, e jardim, sem hierarquias rígidas entre os diferentes usos. A simplicidade nos materiais e nas formas, que nunca são decorativos mas são sempre funcionais.

A entrada do edifício tem um painel de Almada Negreiros, encomendado pela Fundação e deixado ao critério do artista, que gravou na pedra calcária uma síntese dos seus estudos sobre o número e a geometria. É um gesto que Pardal Monteiro também fazia quando integrava Almada nos seus edifícios: a arte não como decoração mas como parte do espaço, inseparável da arquitectura que a alberga.

O jardim que Gonçalo Ribeiro Telles e António Viana Barreto desenharam é uma obra que precisa de ser entendida no tempo. Não é um jardim que se completa quando é plantado. É um jardim que se vai tornando o que é à medida que as árvores crescem, que a vegetação amadurece, que os percursos entre as diferentes zonas ganham a densidade que só o tempo dá. Os próprios autores intervieram no jardim ao longo de décadas, ajustando e acrescentando à medida que o crescimento da vegetação criava novas condições e novas oportunidades. O lago, o anfiteatro ao ar livre, as clareiras, os percursos entre a zona norte e a zona sul, foram sendo aperfeiçoados num diálogo contínuo entre o projecto original e o que o lugar foi pedindo.

Em 1983 foi inaugurado na zona sul do jardim o Centro de Arte Moderna, um projecto do arquitecto britânico Sir Leslie Martin, que tinha sido consultor do concurso original e que regressou duas décadas depois para completar o conjunto. É um edifício diferente do original em linguagem mas compatível em escala e em materiais, que alberga a coleção de arte moderna portuguesa da Fundação.

O conjunto recebeu o Prémio Valmor em 1975 e foi classificado Monumento Nacional em 2010. A classificação como Monumento Nacional de um edifício com menos de cinquenta anos à data é invulgar e diz algo sobre o reconhecimento de que aquilo que foi criado em Palhavã não tem equivalente na arquitectura portuguesa do século XX.

O que a Fundação Calouste Gulbenkian representa para Lisboa não é apenas cultural. É também arquitectónico e urbano. É um dos poucos lugares da cidade onde a relação entre o edifício e a paisagem foi pensada com profundidade suficiente para produzir um resultado que o tempo confirmou em vez de desgastar. Onde a modernidade não foi usada como argumento de ruptura mas como instrumento de integração. Onde o jardim e a arquitectura são a mesma coisa vista de ângulos diferentes.

Um homem que chegou a Lisboa em fuga de uma guerra, que morreu num hotel, e que nunca chegou a ver o edifício que a sua fortuna e a sua colecção tornaram possível, deixou à cidade um lugar que Lisboa não teria encontrado sozinha. Que soube reconhecê-lo é o mínimo que se pode dizer. Que o mantém e que o cuida é, sessenta anos depois, a confirmação de que o gesto foi entendido.

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Distrate. A palavra que aparece nos documentos e que ninguém explicou antes.

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O arquitecto que veio da Hungria e deixou marca em cada esquina de Lisboa.