O arquitecto que veio da Hungria e deixou marca em cada esquina de Lisboa.
Há uma figura na história da arquitectura de Lisboa que existe num espaço curioso: demasiado importante para ser ignorada, demasiado eclipsada para ser conhecida. Carlos Mardel chegou a Portugal em 1733, vindo da Hungria, com a patente de capitão engenheiro e com uma formação que incluía uma passagem por França que se iria revelar determinante para o que viria a fazer em Lisboa. Morreu em 1763, trinta anos depois de chegar, tendo deixado na cidade uma marca que se vê todos os dias sem que quase ninguém saiba o nome de quem a pôs ali.
Era húngaro numa cidade que recebia estrangeiros com a reserva habitual das capitais que se consideram suficientemente formadas. Era militar numa profissão que em Portugal nessa época oscilava entre a engenharia e a arquitectura sem fronteiras claras entre as duas. E tinha vindo de um mundo diferente, com referências francesas que Lisboa ainda não tinha assimilado, o que lhe dava simultaneamente uma vantagem e uma estranheza que levou tempo a digerir.
O primeiro grande trabalho que lhe ficou associado em Lisboa foi o Aqueduto das Águas Livres. A obra mais ambiciosa de engenharia que a cidade tinha empreendido, uma estrutura de arcos que atravessava o vale de Alcântara com uma escala que ainda hoje impressiona quem a vê de perto. Carlos Mardel não começou a obra, que tinha já um historial longo e complicado, mas foi ele quem a dirigiu na fase mais crítica, incluindo a construção do Arco Grande, o arco central do vale, que quando foi terminado em 1744 era um dos maiores arcos de volta perfeita do mundo. Desenhou também a Mãe de Água das Amoreiras, o reservatório terminal do aqueduto, e o Arco das Amoreiras, construído para celebrar a chegada das águas à cidade.
A chegada da água a Lisboa, que a tornava finalmente uma capital com um sistema de abastecimento digno desse nome, foi uma transformação urbana e social de primeiro plano. E Carlos Mardel estava no centro dela.
Quando o terramoto de 1755 destruiu a Baixa, Mardel era já um homem de cinquenta anos com uma reputação estabelecida e um conhecimento profundo da cidade e dos seus sistemas. Era a pessoa certa para o momento que se seguiu. Eugénio dos Santos tinha feito o plano geral, a grelha urbana, a filosofia de conjunto, a estrutura antisísmica. Morreu em 1760 com a obra por acabar. Coube a Mardel continuá-la e completá-la, e foi nessa continuação que acrescentou à Baixa algo que ainda hoje a distingue de outras reconstruções urbanas do mesmo período.
A Praça do Comércio, que é talvez o espaço mais monumental de Lisboa, tem no seu desenho final a mão de Mardel. A articulação das arcadas, a simetria do conjunto, a abertura para o Tejo que transforma a praça numa espécie de portal entre a cidade e o rio, reflectem uma sensibilidade formal que vinha da sua formação francesa e que Eugénio dos Santos, com uma formação mais técnica e militar, não teria necessariamente produzido da mesma forma.
Mardel trouxe também para Lisboa algo que não existia antes: a mansarda. O tipo de cobertura com telhado em dois planos de inclinação diferente, que tinha sido desenvolvido em França no século XVII pelos arquitectos François Mansart e Jules Hardouin-Mansart e que dominava a linguagem dos edifícios parisienses da época. Mardel conhecia este modelo da sua passagem por França e introduziu-o na Baixa Pombalina, adaptando-o aos materiais disponíveis em Portugal, substituindo os elementos franceses por telha cerâmica portuguesa. O resultado é aquela linha de coberturas que dá à Baixa um perfil inconfundível e que ainda hoje distingue os edifícios originais do século XVIII das intervenções posteriores.
Para além da Baixa, Mardel deixou outras marcas em Lisboa que ficaram menos associadas ao seu nome do que mereciam. O Chafariz da Esperança e o Chafariz do Rato são seus. Projectou o palácio do Marquês de Pombal em Oeiras, numa ironia da história que o colocou a trabalhar para o político que mais beneficiou da invisibilidade de quem efectivamente construiu a cidade. Foi nomeado arquitecto dos Paços Reais, o cargo mais alto que um arquitecto podia ocupar na monarquia portuguesa da época, o que diz algo sobre o reconhecimento que o sistema lhe deu, mesmo que a posteridade não tenha acompanhado.
Morreu em 1763, oito anos depois do terramoto, com a reconstrução da Baixa ainda em curso mas com o essencial definido e em construção. Tinha sessenta e sete anos e tinha passado trinta deles a construir Lisboa, primeiro com água e depois com pedra.
O que distingue Carlos Mardel de outros arquitectos que trabalharam em Lisboa no mesmo período é a combinação de escala e de diversidade. Não se limitou a um tipo de obra nem a um tipo de problema. Fez engenharia hidráulica de grande escala, arquitectura de espaços públicos monumentais, arquitectura residencial, arquitectura palaciana, e urbanismo de reconstrução. Em cada um destes domínios deixou algo que ainda existe e que ainda define a cidade.
A Baixa tem o nome de Pombal. O aqueduto tem o nome das Águas Livres, que é o nome da água que transporta. A Praça do Comércio tem o nome do comércio que nela se instalou. Carlos Mardel não tem nada com o seu nome em Lisboa, que seja amplamente conhecido.
É o destino dos arquitectos que trabalham ao serviço do poder e das infra-estruturas: o poder fica com o crédito político e as infra-estruturas ficam com o nome funcional. O arquitecto fica com o arquivo e com a obra, que é silenciosa.
Lisboa seria diferente sem ele. Não melhor nem pior, necessariamente. Diferente. O perfil das coberturas da Baixa seria outro. A Praça do Comércio teria outra forma. O aqueduto poderia não ter chegado à forma que tem. São diferenças que ninguém consegue calcular exactamente porque o contrafactual da história da arquitectura não existe.
O que existe é a cidade. E a cidade tem, em cada mansarda da Baixa e em cada arco do aqueduto, a marca de um húngaro que chegou em 1733 e ficou até morrer, construindo Lisboa como se fosse sua.