O Kremlin de Lisboa.
Há edifícios que se justificam pela sua função e há edifícios que se justificam pela sua forma. A Praça de Touros do Campo Pequeno pertence à segunda categoria com uma convicção que o tempo não diminuiu. Inaugurada em 1892, classificada por um cronista da época como um casarão bárbaro com cenográfico luxo mourisco, e apelidada por outros de Kremlin de Lisboa pelas cúpulas que dominam a sua silhueta, é um edifício que nunca passou despercebido e que nunca procurou passar.
A história começa antes deste edifício. O Campo Pequeno tinha já tradição tauromáquica desde o século XVIII, quando existia no local uma praça de madeira onde se realizavam corridas. A praça que a precedeu directamente ficava no Campo de Santana, inaugurada em 1831 e encerrada em 1888 por questões de segurança. Lisboa precisava de uma nova praça de touros e o município cedeu à Casa Pia, instituição que detém até hoje a exclusividade da organização de corridas de touros em Lisboa, um terreno no Campo Pequeno para a construir.
A Casa Pia não tinha meios para construir sozinha. Cedeu os direitos de construção e exploração por noventa anos a uma empresa privada, a Empreza Tauromachica Lisbonense, constituída por um conjunto de accionistas que incluía, entre outros, Frederico Ressano Garcia, o mesmo engenheiro que estava simultaneamente a planear as Avenidas Novas onde o edifício se iria inserir. É uma das coincidências da história de Lisboa que o homem que desenhou a cidade também investiu na praça de touros que a cidade foi receber.
O projecto foi do arquitecto António José Dias da Silva, nascido em 1848 e morto em 1912. A escolha do estilo não foi acidental nem arbitrária. O neo-árabe, ou neomourisco, era na segunda metade do século XIX uma linguagem arquitectónica com prestígio real em toda a Europa, não como imitação servil mas como um romantismo erudito que procurava nas culturas islâmicas medievais uma alternativa ao classicismo dominante. Para uma praça de touros, actividade que Portugal partilhava com Espanha e que tinha raízes históricas nos territórios que a Península Ibérica partilhara com o Islão durante séculos, a escolha do neomourisco tinha uma coerência cultural que ia além da moda.
O que Dias da Silva construiu é uma obra de tijolo vermelho que usa a sua materialidade com honestidade e com destreza. A planta é circular com torreões adossados que dinamizam o exterior e criam uma planta contracurva que não é apenas decorativa: os torreões funcionam como contrafortes que sustentam os arcos que suportam as bancadas interiores. A estrutura é honesta, os elementos decorativos crescem da estrutura em vez de serem aplicados sobre ela.
As cúpulas bulbosas que coroam os torreões são o elemento mais reconhecível do edifício e os que mais alimentaram o apelido de Kremlin. Em tijolo e metal, com a cor azul original que foi restaurada nas intervenções mais recentes, definem uma silhueta que ainda hoje é imediatamente reconhecível na paisagem da Avenida da República, num momento em que quem sobe a avenida de sul para norte a vê aparecer ao longe com uma presença que nenhum edifício moderno da mesma zona consegue igualar.
A arena em si tem oitenta metros de diâmetro e foi concebida originalmente para oito mil e quatrocentos espectadores. A estrutura interior usa ferro, o mesmo material que José Luís Monteiro estava a introduzir na Estação do Rossio no mesmo período, e que era então a novidade tecnológica que a arquitectura portuguesa estava a assimilar com um atraso de algumas décadas em relação a Paris e a Londres. O ferro permitia coberturas mais largas com menos suportes, criando o espaço contínuo que uma arena de espectáculos exigia.
O edifício foi inaugurado a 18 de Agosto de 1892, com uma corrida de touros. Custou cento e sessenta e um mil réis. E desde o primeiro dia que a sua relação com a cidade foi mais complexa do que a sua função primária sugeria.
A praça de touros como equipamento urbano era, no final do século XIX, uma peça central na vida pública de Lisboa. Não apenas como espaço de espectáculo tauromáquico, mas como ponto de encontro, como espaço de sociabilidade, como lugar onde a cidade se reunia e se via. Os cartazes de touradas eram eventos culturais da época, os toureiros eram figuras públicas com estatuto equiparável ao das estrelas de cinema que vieram depois, e o Campo Pequeno era o palco principal dessa vida.
O século XX tratou a praça de touros com ambivalência crescente. A tauromaquia foi ficando progressivamente mais contestada à medida que as sensibilidades culturais se transformavam, mas o edifício sobreviveu a todas as controvérsias porque era simultaneamente praça de touros e muito mais do que isso. Comícios políticos, concertos, exposições, eventos de todo o tipo passaram pelo Campo Pequeno ao longo de décadas. O espaço tinha uma flexibilidade que a arquitectura original não tinha previsto formalmente mas que a dimensão e a configuração tornavam possível.
Em 1991, a Câmara Municipal de Lisboa lançou um programa de recuperação que incluía o restauro do edifício, a construção de um parque de estacionamento subterrâneo, e a criação de um espaço comercial nos pisos inferiores cujos lucros viabilizariam financeiramente o projecto. A concessão foi atribuída por cem anos à Sociedade de Renovação Urbana do Campo Pequeno.
O projecto de arquitectura ficou a cargo de José Bruschy, Pedro Fidalgo, Filomena e Lourenço Vicente. A filosofia que guiou a intervenção foi, nas palavras dos próprios arquitectos, de bom senso. Antes deste projecto terem sido aprovadas propostas que foram recusadas: uma que pintava a praça de cor-de-rosa, outra que propunha um enorme centro comercial sob as áreas verdes com abate das árvores existentes. A intervenção que foi aprovada respeitou o carácter arquitectónico do edifício, restaurou os elementos construtivos mais importantes, devolveu às cúpulas a cor azul original, e criou sob o chão uma nova vida que não interfere com o que se vê à superfície.
O resultado é um edifício que faz em simultâneo o que dois tipos de edifício diferentes fazem: é uma praça de touros quando a tauromaquia assim o exige, e é um espaço de espectáculos, concertos e eventos o resto do tempo. A cobertura retrátil que a intervenção instalou sobre a arena permite usar o espaço independentemente das condições atmosféricas, transformando o que era uma limitação sazonal numa capacidade de uso permanente.
O Campo Pequeno tem hoje uma vida que em 1892 seria difícil de imaginar: concertos de música pop e rock, feiras temáticas, eventos corporativos, circo. Continua também a ter touradas, com a controversia que isso implica numa época em que a discussão sobre o bem-estar animal tem uma presença pública crescente.
O que não muda é o edifício. As cúpulas azuis continuam a aparecer ao longe quando se sobe a Avenida da República. Os arcos neomouriscos continuam a enquadrar a entrada principal. O tijolo vermelho continua a afirmar a sua presença com a mesma convicção de 1892.
Um casarão bárbaro com cenográfico luxo mourisco. A descrição data de 1920 e tinha uma intenção crítica que o tempo transformou em elogio involuntário. O edifício sobreviveu à crítica, sobreviveu à mudança de usos, sobreviveu a um século de transformações urbanas que tornaram irreconhecível grande parte do que existia na Lisboa de 1892.
Continua ali, na Avenida da República, com as cúpulas azuis e os arcos mouriscos, a ser exactamente o que sempre foi: o único edifício de Lisboa que alguém com sentido de humor comparou ao Kremlin e que o tempo deu razão.