O homem que inventou a Lisboa que conhecemos.
Há uma experiência que toda a gente que vive em Lisboa faz todos os dias sem saber o nome de quem a tornou possível. Caminhar pela Avenida da Liberdade. Atravessar a Praça Marquês de Pombal. Descer a Avenida da República. Entrar no Parque Eduardo VII. Circular pelos bairros de Campo de Ourique ou da Estefânia. Apanhar o eléctrico na Almirante Reis. Tudo isto é Ressano Garcia. A Lisboa que existe entre a Baixa e o Campo Grande, a Lisboa das avenidas largas e dos bairros planeados, a Lisboa que a maior parte das pessoas quando diz Lisboa está a imaginar, é o resultado do trabalho de um engenheiro que chefiou o departamento técnico da Câmara Municipal durante trinta e cinco anos e que nesse tempo transformou a cidade de uma forma que nenhum outro indivíduo, antes ou depois, conseguiu igualar em escala e em impacto.
Frederico Ressano Garcia nasceu em Lisboa em 1847. Formou-se em engenharia na Escola Politécnica e ganhou um concurso que lhe permitiu continuar os estudos em Paris, na École des Ponts et Chaussées, a escola de engenharia e urbanismo mais influente da Europa na segunda metade do século XIX. Chegou a Paris no momento certo: estava a terminar a grande renovação urbana conduzida por Haussmann, que tinha transformado a cidade medieval numa capital moderna com boulevards largos, infraestruturas enterradas, arborização sistemática, e uma lógica de conjunto que fazia de Paris a referência urbana que toda a Europa queria imitar.
Ressano Garcia viu isso. Percebeu o que era e percebeu que Lisboa precisava do mesmo, com as adaptações que a topografia, os recursos e a escala da cidade portuguesa exigiam. Voltou a Lisboa em 1869 e cinco anos depois entrou para a Câmara Municipal como engenheiro chefe, um cargo que ocupou até 1909. Trinta e cinco anos de trabalho contínuo sobre a mesma cidade, com uma consistência e uma visão de longo prazo que raramente existe em estruturas municipais.
O que fez nesse tempo não foi apenas construir avenidas. Foi conceber uma cidade nova a norte da cidade existente, com uma lógica que ia muito além do traçado viário.
O plano das Avenidas Novas partia de uma constatação topográfica simples mas determinante: a norte da cidade velha havia um planalto contínuo que se estendia até ao Campo Grande, sem os acidentes de terreno que tornavam a expansão noutras direcções mais cara e mais complicada. Era o caminho de menor resistência para uma cidade que precisava de crescer. Ressano Garcia aproveitou essa topografia e sobre ela desenhou uma grelha de avenidas largas e perpendiculares, inspirada em Haussmann mas adaptada à escala e aos recursos de Lisboa, que criava não apenas espaço para construir mas condições para uma vida urbana diferente da que existia na cidade antiga.
A diferença não era apenas visual. Era infraestrutural.
Ressano Garcia foi um dos primeiros urbanistas em Portugal a perceber que uma cidade moderna não se faz apenas com ruas e edifícios. Faz-se com o que está por baixo das ruas. As infraestruturas para o abastecimento de água, para o escoamento de esgotos, para a distribuição de gás e electricidade, foram instaladas no subsolo das novas avenidas antes de os edifícios serem construídos. Era uma inversão da lógica que tinha presidido ao crescimento das cidades medievais, onde as infraestruturas chegavam depois dos edifícios e eram sempre insuficientes e mal integradas. Nas Avenidas Novas, a infraestrutura chegou primeiro. Os edifícios vieram depois, sobre uma cidade que já estava preparada para os receber.
Esta decisão, que parece óbvia vista de hoje, não era óbvia no contexto da Lisboa de 1870. Exigiu visão técnica, capacidade de persuasão política, e a paciência de quem sabe que os resultados de um trabalho desta natureza não se vêem em meses mas em décadas.
A Avenida da Liberdade foi o eixo principal do plano. Larga, arborizada, com passeios amplos e uma escala que Lisboa não tinha nunca tido, foi o sinal mais visível de que a cidade estava a mudar de natureza. A norte, a Praça Marquês de Pombal funcionava como o nó central a partir do qual as Avenidas Novas se desenvolviam em direcção ao Campo Grande, com a Avenida da República como espinha dorsal e um conjunto de ruas transversais que criavam os quarteirões onde a burguesia lisboeta do final do século XIX e início do século XX foi construir as suas casas e os seus palacetes.
Ao mesmo tempo, Ressano Garcia estava a trabalhar noutras partes da cidade. O bairro de Campo de Ourique, numa colina a ocidente que tinha ficado fora dos planos de expansão anteriores. O bairro da Estefânia, a nascente, com uma lógica semelhante mas adaptada a uma topografia diferente. A Avenida 24 de Julho prolongada até Alcântara, ligando a zona ribeirinha ocidental ao centro. A futura Almirante Reis, a norte, abrindo o corredor para o crescimento em direcção a Arroios e à Penha de França.
Lisboa mais do que duplicou de área durante o período em que Ressano Garcia chefiou o departamento técnico da câmara. Não é uma metáfora. É uma medida. A cidade que existia em 1874, quando chegou ao cargo, e a cidade que existia em 1909, quando saiu, eram cidades de dimensão radicalmente diferente. E a diferença tinha o seu plano, a sua lógica, e o seu nome.
Há um detalhe da história de Ressano Garcia que diz muito sobre como Portugal trata os seus construtores.
Em 1897, a câmara municipal deu o nome dele a uma das avenidas que tinha planeado, a que hoje é a Avenida da República. Era um reconhecimento raro e significativo: ter o nome numa rua da cidade ainda em vida. Treze anos depois, em 1910, a República substituiu o nome. A Avenida Ressano Garcia passou a Avenida da República, porque o novo regime queria o espaço para o seu próprio simbolismo e o engenheiro que a tinha projectado era um nome do regime anterior.
O nome voltou à toponímia lisboeta em 1929, numa avenida mais pequena no Bairro Azul. É lá que está hoje. Não é a Avenida da República nem a Avenida da Liberdade nem o Parque Eduardo VII. É uma avenida que a maior parte dos lisboetas que a atravessam todos os dias não associa ao homem que desenhou a cidade onde vivem.
Ressano Garcia morreu em 1911, dois anos depois de deixar o cargo, com sessenta e três anos. Tinha chegado à câmara como engenheiro chefe e saiu como o homem que tinha feito a maior intervenção de planeamento urbano em Lisboa desde a reconstrução da Baixa após o terramoto. Era também deputado, par do reino, e professor. Uma vida preenchida de múltiplas formas.
Mas o que fica, o que é impossível de ignorar para quem olha para Lisboa com atenção, é a cidade. A grelha das Avenidas Novas com a sua regularidade que contrasta com o orgânico da cidade antiga. Os boulevards arborizados que Paris tinha inventado e que Ressano Garcia transplantou para Lisboa com a sabedoria de quem percebeu o que os tornava funcionais e não apenas bonitos. Os bairros planeados onde a infraestrutura chegou antes dos edifícios. A Praça Marquês de Pombal como ponto de articulação entre a cidade antiga e a cidade nova.
Tudo isto foi pensado por um homem que estudou em Paris, voltou a Lisboa, e passou trinta e cinco anos a fazer a cidade que tinha aprendido a imaginar.
A Lisboa que toda a gente conhece é, em grande parte, a Lisboa de Frederico Ressano Garcia. Que o seu nome não seja imediatamente reconhecível para a maioria das pessoas que nela vive é uma injustiça menor do que a que foi cometida com Eugénio dos Santos, mas é uma injustiça da mesma família: a de uma cidade que usa o trabalho dos seus construtores todos os dias sem saber a quem deve o que tem.