O prémio que quis ensinar Lisboa a construir bem.

Há uma história por detrás do Prémio Valmor que começa com um testamento e que diz, antes de qualquer coisa sobre arquitectura, algo sobre uma forma de entender a cidade que raramente existe hoje.

Fausto de Queirós Guedes, segundo visconde de Valmor, era diplomata, político, par do reino, governador civil de Lisboa, e um apreciador genuíno das belas artes. Morreu em França em 1878. No testamento que deixou, havia uma instrução que não era habitual: legava à Câmara Municipal de Lisboa uma quantia de cinquenta contos, cujos rendimentos anuais deviam ser usados para premiar, todos os anos, o mais belo edifício construído na cidade. O prémio seria dividido em partes iguais entre o proprietário e o arquitecto. A intenção declarada era proporcionar a Lisboa um estilo digno de uma cidade civilizada.

O testamento demorou a ser executado. O prémio foi instituído formalmente em 1897 e atribuído pela primeira vez em 1902. Mas a lógica por detrás dele era clara e tem uma elegância que merece ser sublinhada: ao premiar simultaneamente o proprietário e o arquitecto, o visconde de Valmor percebeu que a qualidade da arquitectura urbana não dependia apenas de quem projectava. Dependia também de quem encomendava e de quem pagava. Um proprietário que soubesse que um edifício de qualidade podia ser reconhecido e premiado pela cidade tinha um incentivo concreto para contratar um arquitecto de mérito em vez de um mestre de obras que resolvesse o problema mais barato e mais depressa.

Era um mecanismo simples com uma ambição cultural real: mudar o comportamento do mercado imobiliário de Lisboa através de um incentivo à qualidade.

Durante as primeiras décadas, o prémio funcionou como espelho fiel do que Lisboa estava a construir. Os primeiros vencedores eram edifícios habitacionais de prestígio, palacetes e prédios de rendimento nas zonas que estavam a crescer com o plano de Ressano Garcia, com as Avenidas Novas a absorver a ambição arquitectónica da burguesia lisboeta do final do século XIX e início do XX. Os nomes que aparecem na lista dos primeiros premiados são os nomes que construíram essa Lisboa: Ventura Terra, com quatro prémios e uma menção honrosa, José Luís Monteiro, Rosendo Carvalheira.

O segundo Prémio Valmor da história, atribuído em 1903, foi para um edifício que o seu próprio arquitecto construiu para si: a Casa Ventura Terra, na Rua Alexandre Herculano. O facto de o arquitecto ser também o proprietário do edifício premiado é uma coincidência que diz algo sobre o estado da profissão na época: havia arquitectos que confiavam suficientemente no que faziam para investir o seu próprio dinheiro nas suas próprias ideias.

A lista dos premiados ao longo do século XX é, ela própria, uma história da arquitectura de Lisboa. Cada prémio é um instantâneo do que a cidade considerava exemplar em cada momento. E porque os gostos mudam, porque o que parece moderno em 1910 parece conservador em 1940, e o que parece ousado em 1938 parece integrado em 1970, a lista é também uma história das contradições e das tensões que atravessaram a arquitectura portuguesa ao longo de cem anos.

Em 1931, o júri do Prémio Valmor premiou pela primeira vez um projecto de base racionalista, um edifício na Rua Infantaria 16. Foi um momento de ruptura que revelava que a cidade estava, finalmente, a aceitar o modernismo como linguagem legítima para a sua arquitectura doméstica. Nesse mesmo júri estava Raul Lino, que votou a favor. A contradição aparente, o arquitecto da casa portuguesa a premiar um projecto racionalista, é na verdade uma prova de que Raul Lino era mais complexo do que a caricatura que a história lhe colou.

Em 1938, Pardal Monteiro ganhou o Valmor com a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, o primeiro prémio atribuído a um edifício não habitacional. Era também a confirmação de que o modernismo tinha chegado à arquitectura religiosa portuguesa, um território que tinha resistido mais do que outros à mudança de linguagem. A polémica que rodeou a obra não impediu o reconhecimento.

Em 1940, o mesmo Pardal Monteiro ganhou de novo, com o edifício do Diário de Notícias na Avenida da Liberdade. Os painéis de Almada Negreiros no interior do edifício eram parte da obra premiada. Era a primeira vez que o prémio reconhecia explicitamente a integração das artes plásticas na arquitectura como um valor e não como um ornamento acessório.

Em 1975, o edifício sede da Fundação Calouste Gulbenkian ganhou o Valmor, a par com a Igreja do Sagrado Coração de Jesus na Rua Camilo Castelo Branco. Dois edifícios radicalmente diferentes a partilhar o mesmo reconhecimento numa época em que Lisboa estava a reaprender a construir depois de décadas de constrangimento político e estético.

Mas a história do Prémio Valmor não é apenas uma história de sucessos. É também uma história de contradições e de falhanços que o próprio prémio não conseguiu evitar.

Há edifícios premiados que foram posteriormente demolidos, alterados de forma irreconhecível, ou degradados até ao ponto de se tornarem irrelevantes. O prémio não conferia qualquer protecção legal, não criava qualquer obrigação de preservação, não comprometia a câmara municipal a defender o que tinha premiado. Era um reconhecimento sem consequências práticas para a longevidade do edifício, o que é uma limitação estrutural que nenhum júri podia compensar.

Há também períodos em que o prémio perdeu relevância por razões que têm mais a ver com a gestão do processo do que com a qualidade da arquitectura que estava a ser produzida. A fusão com o Prémio Municipal de Arquitectura em 1982, e a ingerência política na composição de júris ao longo de diferentes períodos, produziram anos em que o prémio foi atribuído a obras medianas, ou em que não foi atribuído por incapacidade do júri de chegar a acordo, ou em que foi atribuído por razões que tinham pouco a ver com a qualidade arquitectónica.

Estas falhas não apagam o que o prémio representa na história da cidade. Mais de cento e vinte anos de atribuições contínuas, com interrupções pontuais mas sem abandono definitivo, constituem um arquivo único da arquitectura lisboeta que não existe de outra forma. Percorrer a lista dos vencedores do Valmor é percorrer a história da cidade através das suas melhores aspirações em cada momento, com todas as contradições e todas as limitações que essas aspirações revelam.

O visconde de Valmor quis proporcionar a Lisboa um estilo digno de uma cidade civilizada. A ambição era mais vasta do que um prémio anual podia cumprir. Mas a intenção que presidiu à criação do prémio, de que a qualidade na construção da cidade merecia reconhecimento público e que esse reconhecimento podia mudar o comportamento de quem construía, é uma ideia que o tempo não tornou obsoleta.

Tornou-a mais necessária.

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O homem que inventou a Lisboa que conhecemos.