Estará o luxo com os dias contados?
Há uma pergunta que me persegue há algum tempo. Não a partilho com facilidade porque não tenho resposta, e no mercado imobiliário, como em tantos outros, não ter resposta é visto como fraqueza. Mas fingir que a pergunta não existe seria desonesto. E a desonestidade, essa sim, não me fica bem.
A pergunta é esta: quando o polyester entra na alta costura e ninguém nota, quando o diamante de laboratório é quimicamente idêntico ao que vem da terra e custa dez vezes menos, quando o Silestone executa tecnicamente melhor do que muitos mármores e os melhores designers do mundo o escolhem sem hesitar, o que fica do luxo? O que é que estamos exactamente a proteger quando insistimos na distinção entre o original e a sua cópia perfeita?
Não é uma pergunta retórica. É uma pergunta real, e o mercado imobiliário não está imune a ela.
Já entrei em apartamentos onde o porcelânico de grandes dimensões, bem escolhido e bem assente, cria uma atmosfera que o mármore natural de qualidade média não consegue igualar. Já vi cozinhas em Silestone que envergonham bancadas em pedra mal trabalhada. Já toquei em tecidos de alta performance que têm uma queda e uma textura que a mão não distingue do natural. E fiz sempre a mesma pergunta a mim própria: se não se distingue, distingue-se?
O argumento clássico do luxo é a origem. O diamante natural carrega consigo milhões de anos de pressão, uma história geológica, uma extracção que aconteceu num sítio específico do planeta. O mármore de Carrara tem uma luz que é daquele lugar e de nenhum outro. A seda natural tem uma irregularidade microscópica que é a prova de que ali esteve um bicho-da-seda, não uma máquina. A origem é a diferença, e a diferença é o valor.
Mas a origem só tem valor para quem a consegue ler. E cada vez mais compradores não a conseguem ler, não porque sejam ignorantes, mas porque nunca tiveram razão para aprender. Quando a cópia é suficientemente boa para a vida que se quer viver, a conversa sobre a origem torna-se abstracta. Torna-se uma questão de princípio sem consequência prática. E os princípios sem consequência prática têm uma vida útil limitada.
Há uma segunda tensão que me inquieta ainda mais.
O luxo sempre se definiu, em parte, pela exclusão. Não exclusão de pessoas, exclusão de acesso. O que era raro era raro porque poucos podiam ter. Quando a tecnologia democratiza o raro, o que acontece ao conceito? O diamante de laboratório não é uma cópia inferior, é o mesmo diamante, feito de outra forma. O Silestone não é um simulacro do mármore, é um material diferente com propriedades próprias que em alguns contextos supera a pedra natural. Quando a alternativa não é inferior, o original deixa de ser superior. É apenas diferente. E diferente, sozinho, não sustenta um preço premium indefinidamente.
E no entanto.
Há qualquer coisa que resiste nesta conversa. Algo que não consigo reduzir a argumento mas que sinto com clareza quando estou em frente ao mármore certo, na luz certa, num espaço que foi pensado com tempo e com intenção. Há uma presença que os materiais naturais têm, uma imperfeição que é simultaneamente a prova da sua origem e o registo do tempo que passou, que nenhuma engenharia conseguiu ainda replicar completamente. Não porque não seja tecnicamente possível. Porque não é esse o ponto.
O ponto é que o luxo nunca foi inteiramente sobre o material. Foi sempre sobre o que o material carrega. A história. A raridade. A prova de que alguém escolheu o difícil quando o fácil estava disponível.
O que talvez esteja com os dias contados não é o luxo. É a versão do luxo que se esconde atrás do material para não ter de justificar mais nada. O luxo que diz "é mármore" e pensa que isso chega. O luxo que usa a origem como substituto da qualidade, como se a procedência absolvesse a execução medíocre.
O luxo que sobrevive, que sempre sobreviveu, em todos os sectores, em todas as épocas, é o que tem algo a dizer para além do material. É o que existe porque alguém acreditou que valia a pena fazer bem, mesmo quando o atalho estava disponível. Esse não está com os dias contados.
Mas honestamente? Não tenho a certeza se o mercado imobiliário português sabe qual dos dois é.