Acha as casas estupidamente caras? E o quilo da maçã?

Toda a gente tem uma opinião sobre o preço das casas.

Toda a gente.

O seu vizinho, o seu cunhado, o colega do escritório que ainda vive em casa dos pais. Todos têm algo a dizer. "É um escândalo." "Estão a roubar-nos." "Antes não era assim."

E têm razão. Os preços estão altos. Isso não está em discussão.

Mas há uma pergunta que ninguém faz, e que me intriga há algum tempo.

O quilo da maçã está a 3 euros no supermercado. O litro de azeite ultrapassou os 15. A factura do talho já não parece do talho, parece de uma boutique.

E... silêncio.

Aceita-se. Paga-se. Segue-se em frente.

Porquê?

Não estou a dizer que o preço das casas não é um problema real. É. Genuinamente.

Mas o que me fascina é a selectividade da indignação.

A casa concentra tudo: a raiva do momento, a frustração geracional, a sensação de que o futuro foi roubado. É o símbolo perfeito. É grande, é visível, é cara. Dói de forma que toda a gente consegue nomear.

O quilo da maçã é pequeno. Passa. Acumula-se em silêncio.

E no fim do mês, quando olhamos para o extracto e não percebemos para onde foi o dinheiro, raramente pensamos: "Foi a inflação alimentar. Foi o azeite. Foi a carne. Foi o queijo."

Pensamos: "Preciso de ganhar mais. Ou de arranjar uma casa mais barata."

A casa recebe a culpa. A alimentação fica de fora.

O CONTRASTE QUE VALE A PENA NOTAR

Há algo curioso na psicologia do preço.

Compramos casa uma, duas, talvez três vezes na vida. É uma decisão enorme, carregada de expectativa e de simbolismo. O preço fica gravado. Comparamos com o que os nossos pais pagaram. Com o que o vizinho pagou há dez anos. A referência existe, e a diferença choca.

A alimentação compramos todas as semanas. O preço vai subindo devagar, à velocidade suficiente para não chocar, rápida o suficiente para destruir o orçamento ao fim de dois anos.

É a diferença entre uma queda e uma erosão.

A queda vê-se. A erosão sente-se, mas não se consegue apontar com o dedo.

O QUE ISTO TEM A VER COM IMOBILIÁRIO

Muito, na verdade.

Quando trabalho com compradores, uma das primeiras conversas que faço questão de ter não é sobre o preço por metro quadrado. É sobre a fotografia completa: o que é que esta decisão significa no contexto de tudo o resto que está a acontecer à sua vida financeira?

Porque a casa não é uma ilha.

Quem compra com a cabeça apenas no preço da casa, muitas vezes esquece o que fica de fora do financiamento: as obras, os impostos, a prestação que vai subir se as taxas mexerem, o fundo de emergência que devia existir mas não existe porque foi tudo para a entrada.

E depois estranha quando a vida aperta noutros sítios.

Por isso, da próxima vez que alguém lhe disser que as casas estão um escândalo, pergunte-lhe, com curiosidade genuína:

"E o resto? Reparou no que está a pagar no supermercado?"

Não para desviar o assunto. Mas porque a resposta a essa pergunta diz muito sobre como a pessoa pensa o dinheiro, as suas prioridades, e se está, de facto, a tomar decisões com visão ou apenas a reagir ao que é mais barulhento.

As casas estão caras. Isso é real.

Mas a indignação selectiva tem um custo que raramente contabilizamos.

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