Em Mafra percebe-se uma coisa: há uma diferença entre construir grande e construir bem. E às vezes as duas coisas não têm nada a ver uma com a outra.
Vou ser honesta.
Mafra intimidou-me de uma forma que os outros palácios não intimidaram. Não pelo que tem de belo, que tem. Pelo que tem de desproporcional. Pela sensação, que não consegui afastar durante a visita, de que aquilo foi construído para demonstrar poder e não para criar um lugar.
E essa distinção, que parece filosófica quando se diz assim, é na prática a coisa mais concreta que existe quando se trabalha com casas.
A escala que esmaga
A fachada de Mafra tem 220 metros de comprimento. Duzentos e vinte metros. É um número que não cabe na experiência normal de espaço, e é precisamente isso que D. João V queria: um número que não coubesse. Uma declaração que não deixasse margem para interpretação. Portugal, 1717, dinheiro do ouro do Brasil, e uma necessidade de afirmação que o maior palácio-convento da Península Ibérica ia resolver.
Resolve, de certa forma. A fachada impressiona. O adro impressiona. A biblioteca, que é de uma beleza que desarma qualquer cinismo, impressiona.
Mas há algo que Mafra não faz, e que o Chalet da Condessa d'Edla fazia em cada divisão: não convida a ficar. Impressiona e mantém à distância. É um espaço que se visita, não que se habita, e essa sensação está inscrita na própria arquitectura, na escala que foi pensada para o olhar e não para o corpo, para a representação e não para a vida.
O que a biblioteca ensina sozinha
Há uma excepção a tudo o que disse, e é suficientemente importante para ter o seu próprio espaço: a biblioteca de Mafra é uma das coisas mais extraordinárias que já vi num edifício português.
Não pela dimensão, embora seja enorme. Pela proporção. Pela forma como a escala vertical foi equilibrada com a escala horizontal de uma forma que cria uma tensão que é simultaneamente grandiosa e habitável. Pelas galerias que criam um segundo nível de relação com o espaço. Pela luz que entra pelas janelas laterais e que percorre as lombadas dos livros de uma forma que parece estudada, e provavelmente foi.
A biblioteca de Mafra foi pensada para ser usada. Não para ser mostrada. E isso vê-se na forma como o espaço funciona, na relação entre as estantes e os vãos, na escala das mesas em relação à altura do tecto. Há uma proporcionalidade aqui que está ausente em grande parte do resto do edifício, e pergunto-me se foi o mesmo arquitecto, a mesma intenção, ou se a biblioteca teve a sorte de ser desenhada por alguém que sabia para que servia.
A lição incómoda
Mafra ensina uma coisa que os outros palácios não ensinam com a mesma clareza, porque os outros palácios não têm este problema na mesma escala: dinheiro e dimensão não são substitutos de critério.
D. João V tinha recursos ilimitados, pelo menos durante parte da construção. Tinha acesso aos melhores artesãos, aos melhores materiais, a uma ambição sem restrições orçamentais. E o resultado é um edifício que impressiona sem comover, que domina sem acolher, que demonstra poder sem revelar gosto.
Vejo isto no mercado. Não à escala de Mafra, evidentemente, mas o padrão é reconhecível: casas com orçamentos de renovação consideráveis que ficaram aquém do que podiam ser porque o dinheiro foi gasto em quantidade e não em critério. Materiais caros escolhidos sem coerência. Dimensões generosas sem proporção. Acabamentos de catálogo de topo que não conversam entre si.
O dinheiro compra os elementos. Não compra a decisão sobre como os relacionar.
O que Mafra tem que Queluz e a Pena não têm
Honestidade brutal sobre as suas próprias contradições.
Mafra não dissimula o que é. É um edifício construído para um propósito muito específico, com uma lógica muito específica, e essa lógica está presente em cada metro da fachada e em cada corredor do interior. Não há ambiguidade sobre a intenção. Há clareza total, e essa clareza, mesmo quando produz espaços que não habitam bem, tem uma integridade própria.
Prefiro um edifício que sabe o que é e o declara sem desculpas a um edifício que tenta ser várias coisas e não é nenhuma com convicção. Mafra é completamente ele próprio, para o bem e para o menos bem, e isso é uma posição que respeito mesmo quando não partilho o resultado.
A pergunta que Mafra deixa
Saí de lá com uma pergunta que não consigo resolver completamente: até que ponto a escala, quando ultrapassa um certo limiar, deixa de servir a arquitectura e passa a servir apenas a demonstração?
Não sei a resposta. Sei que há um ponto em Mafra onde senti que o edifício tinha deixado de falar comigo e tinha começado a falar sobre si próprio. Onde a experiência de visitar cedeu à experiência de ser pequeno perante qualquer coisa muito grande.
Isso pode ser o objectivo. Provavelmente era.
Mas não é o que procuro nas casas que apresento. Procuro o oposto: espaços que falem com quem os habita, que se ajustem à vida em vez de exigirem que a vida se ajuste a eles, que sejam grandes ou pequenos conforme o que a função pede e não conforme o que a demonstração exige.
Mafra ensinou-me isso por contraste. Às vezes as melhores lições vêm dos exemplos que nos mostram o que não queremos, com uma clareza que os exemplos perfeitos não conseguem.
E a biblioteca. A biblioteca ensinou-me por mérito próprio.
Vale a visita só por ela.