Os teus pais não te ensinaram a comprar casa.

Não por falta de vontade. Por impossibilidade. O mercado em que compraram não tem nenhuma relação estrutural com o mercado em que vais comprar, e as regras que aprendeste em casa, por osmose, por conversas à mesa, por observação do que fizeram e do que correu bem, são regras escritas para um jogo que já não existe.

Vale a pena perceber porquê.

A geração que comprou casa em Lisboa entre os anos oitenta e o início dos anos dois mil fê-lo num contexto que tinha três características que hoje não existem em simultâneo. Os preços das casas eram baixos em termos absolutos e em relação aos salários. As taxas de juro, apesar de terem sido historicamente altas em certos períodos, estavam a descer de forma consistente ao longo de décadas, o que significava que quem comprou com taxa alta refinanciou mais tarde em condições melhores. E havia uma inflação moderada mas persistente que corroía a dívida em termos reais ao longo do tempo, tornando uma prestação que parecia pesada no início progressivamente mais leve em relação ao rendimento.

Neste contexto, comprar cedo, comprar grande, comprar o máximo que o banco financiava, era uma estratégia que funcionou para muita gente. Não porque fosse financeiramente sofisticada. Porque o contexto era generoso o suficiente para perdoar os erros e amplificar os acertos.

O conselho que ficou dessa experiência foi: compra casa o mais cedo possível, compra a maior que conseguires, não percas tempo a arrendar. É um conselho honesto. É um conselho que reflecte o que funcionou. É um conselho completamente desajustado para o mercado actual.

Os preços em Lisboa estão entre os mais altos da Europa em relação aos salários locais. A entrada mínima necessária para comprar um apartamento mediano representa anos de poupança para a maioria dos compradores de primeira casa. As taxas de juro estabilizaram num patamar que não é historicamente alto mas que é muito superior ao que vigorou durante a década de dinheiro barato a que o mercado se habituou. E a inflação que corroía a dívida corrói agora também o poder de compra dos salários sem que estes acompanhem ao mesmo ritmo.

O contexto é estruturalmente diferente. As mesmas decisões produzem resultados diferentes.

Mas há algo mais subtil do que os números que os pais transmitiram e que é igualmente desajustado: a ideia de que a casa é um projecto de vida que se escolhe uma vez e se mantém para sempre. A casa da família. O sítio onde se cria os filhos, onde estes crescem, onde se envelhece. Esta ideia moldou critérios de compra que persistem mesmo em pessoas que racionalmente sabem que a sua vida não vai seguir esse padrão.

É por isso que um comprador de primeira casa que vai viver sozinho ainda pondera se o quarto extra chega para um escritório ou para um quarto de criança. É por isso que a localização é avaliada em função das escolas do bairro em vez de em função do transporte para o trabalho. É por isso que a decisão se arrasta durante anos à espera da casa que sirva não a vida actual mas a vida que se imagina ter daqui a quinze anos, com pessoas e circunstâncias que ainda não existem.

Os pais compraram assim porque fazia sentido comprarem assim. O emprego era para a vida, a família estava definida, o horizonte era estável e previsível. A casa para a vida era uma decisão racional porque a vida tinha essa estabilidade.

Hoje o emprego muda. A cidade muda. As relações mudam. O país de residência pode mudar. Comprar com os critérios de uma vida estável e previsível quando a vida é móvel e imprevisível é usar o mapa errado para a viagem certa.

O que os pais ensinaram tem valor. Ensinaram que a propriedade acumula património, que pagar uma prestação é diferente de pagar uma renda, que ter um activo real protege em momentos de instabilidade. Esses princípios continuam válidos.

O que não continuam válidos são os critérios específicos que aplicaram: comprar grande, comprar para sempre, comprar a vida que se quer ter em vez da vida que se tem.

A primeira casa não é a casa dos teus pais. É a tua primeira posição num mercado que vai continuar a mudar. Quanto mais cedo perceberes a diferença, melhores as decisões que tomas com ela.

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Lisboa tem dez anos de atraso em tudo excepto nos preços.

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A fotografia da casa não é a casa.