O parque que Lisboa demorou sessenta anos a terminar.
Há espaços na cidade que existem de forma tão natural, tão integrada no quotidiano de quem os usa, que é difícil imaginar que não foram sempre assim. O Parque Eduardo VII é um deles. Quem sobe aquela alameda central de relva em direcção ao miradouro do norte, com Lisboa a abrir-se para o Tejo em baixo, tem a sensação de um espaço que sempre existiu desta forma, com esta escala, com esta relação com a cidade.
Não existiu. E demorou muito mais tempo do que devia a chegar ao que é hoje.
A história começa antes do parque. Começa com o Passeio Público, o jardim que existia no eixo da actual Avenida da Liberdade desde o século XVIII, o lugar onde a burguesia lisboeta se exibia e se encontrava, o único espaço verde ordenado que a cidade tinha no seu centro. Em 1882, quando Ressano Garcia abriu a Avenida da Liberdade, o Passeio Público foi destruído para dar lugar ao novo eixo viário. Lisboa perdeu o seu jardim central e ficou com uma promessa: no topo da nova avenida, onde o terreno subia em direcção ao planalto das Avenidas Novas, haveria um parque.
A promessa demorou a cumprir-se.
Em 1887, Ressano Garcia lançou um concurso internacional de ideias para o parque, que se chamava então Parque da Liberdade. De vinte e nove projectos concorrentes, o júri escolheu o de Henri Lusseau, um projecto de cariz romântico com alamedas, lagos, e um belvedere pensados para seguir a morfologia natural do terreno. Era uma visão de parque ao gosto pitoresco inglês, que era a referência dominante no desenho de jardins públicos da época.
O projecto ficou no papel durante décadas.
Em 1902, Eduardo VII, rei do Reino Unido, visitou Lisboa para reafirmar a aliança histórica entre Portugal e Inglaterra, formalizada em 1386 com o Tratado de Windsor, uma das mais antigas alianças diplomáticas do mundo, renovada ao longo dos séculos sem interrupção significativa. Foi um gesto de proximidade política num momento em que a Europa estava a reconfigurar as suas alianças. A câmara municipal de Lisboa, em sessão de 13 de Abril de 1903, deliberou dar o nome do monarca inglês ao parque que ainda estava por construir. O Parque da Liberdade passou a Parque Eduardo VII.
O nome mudou. O terreno continuou igual.
Só em 1915 começaram efectivamente os trabalhos de ajardinamento. Lentamente, ao longo de décadas, o espaço foi sendo ocupado. A Estufa Fria surgiu nos anos trinta, instalada numa antiga pedreira de basalto no canto noroeste do parque, uma estrutura de madeira e ripas que criava sombra suficiente para albergar plantas tropicais e subtropicais que não sobreviveriam à exposição directa do sol lisboeta. Era e continua a ser uma das singularidades mais inesperadas da cidade: um microclima criado pelo engenho de quem percebeu que a pedreira podia ser transformada em jardim. O Pavilhão Carlos Lopes, construído em 1932 para a Exposição Industrial Portuguesa e revestido exteriormente com painéis de azulejos que narram cenas da história portuguesa, foi incorporado no parque e deu-lhe um equipamento cultural que ainda hoje funciona.
Mas o parque que existe hoje, a sua forma definitiva, a alameda central de relva ladeada por sebes de buxo e flanqueada por dois passeios largos de calçada portuguesa, com a geometria precisa que organiza o espaço do sul ao norte até ao miradouro, só chegou em 1942, com a conclusão da obra nos anos seguintes. Foi Keil do Amaral, um dos arquitectos paisagistas mais importantes de Portugal no século XX, quem projectou o parque tal como o conhecemos. Sessenta anos depois de a avenida ter destruído o Passeio Público, Lisboa teve finalmente o parque que devia ter tido muito antes.
O que Keil do Amaral fez foi elegante na sua simplicidade. O terreno do parque tem um desnível pronunciado do sul para o norte, subindo desde a Praça Marquês de Pombal até ao miradouro. Em vez de trabalhar contra esse desnível, Keil do Amaral usou-o. A alameda central sobe suavemente, e quem a percorre do sul para o norte vai ganhando altura sem o perceber claramente, até que chega ao topo e Lisboa aparece em baixo, com a Avenida da Liberdade a descer em linha recta até ao Rossio, o Tejo ao fundo, e nos dias claros a Serra da Arrábida a fechar o horizonte.
É uma das vistas mais completas de Lisboa. E foi desenhada, não encontrada.
A geometria do parque tem uma racionalidade que contrasta com o romantismo pitoresco que o projecto original de Lusseau propunha. A alameda central é um eixo claro. Os dois passeios laterais são simétricos. As sebes de buxo criam uma composição geométrica no relvado que é visível de cima e que dá ao parque uma identidade formal reconhecível. É uma linguagem modernista aplicada ao espaço verde público, que não renuncia à escala monumental mas que a torna habitável e quotidiana.
No topo norte, quatro colunas monumentais que pertencem ao projecto original do parque enquadram o miradouro e o Monumento ao 25 de Abril, inaugurado em 1997 com polémica considerável sobre a forma escolhida pelo escultor João Cutileiro. A grande bandeira portuguesa que ondeia no topo do parque, visível de grande parte do centro de Lisboa, não é parte do projecto original. Foi sugerida em 2003 por uma criança de nove anos chamada Tomás Carvalho, em conversa com o então Presidente da República Jorge Sampaio, que a adoptou. É um dos poucos casos em Portugal em que uma ideia de uma criança mudou a imagem de um espaço público de forma permanente.
O Parque Eduardo VII tem hoje vinte e cinco hectares, a Estufa Fria, o Pavilhão Carlos Lopes, lagos, jardins, a Feira do Livro que o ocupa todos os anos entre finais de Maio e início de Junho, e aquela vista do norte que não tem equivalente no centro da cidade.
Tem também o nome de um rei inglês que o visitou no princípio do século passado e que nunca mais voltou. É uma homenagem que faz sentido no contexto da aliança luso-britânica mas que, fora desse contexto, é uma das estranhezas que Lisboa acumulou ao longo dos séculos e que já ninguém questiona porque já ninguém se lembra de quando começou.
O parque é de Lisboa. O nome é de Eduardo VII. E a forma que tem é de Keil do Amaral, que em 1942 resolveu em traço limpo o que sessenta anos de discussão e inacção tinham deixado em aberto.