O azulejo que ninguém sabe datar.

Quando se entra numa casa histórica em Lisboa pela primeira vez, há elementos que toda a gente vê e elementos que quase ninguém sabe ler. A maioria das pessoas vê os azulejos. Poucos sabem o que estão a ver.

Não é uma questão de gosto estético. É uma questão de conhecimento que o mercado imobiliário não transmite porque não tem obrigação de o fazer, e que pode representar uma diferença significativa no valor real do que se está a comprar, ou no custo de destruir algo que não se sabia que existia.

Lisboa é, há cinco séculos, uma cidade de azulejos. Depois do terramoto de 1755, a reconstrução da cidade impôs um ritmo intenso na produção de azulejos de padrão, hoje designados pombalinos, usados para decoração dos novos edifícios, combinando técnicas industriais e artesanais. O que ficou desse período, e dos períodos anteriores e posteriores, está nas casas. Nas paredes das cozinhas, nos rodapés dos corredores, nas fachadas, nos halls de entrada. Está ali, frequentemente sem inventário, frequentemente sem que o próprio proprietário saiba o que tem.

O mercado de azulejos antigos tem mostrado crescimento constante, com peças raras a atingir valores significativos em leilões internacionais. Mas o problema não é apenas de valor económico. É de irreversibilidade.

Um painel de azulejos do século XVIII numa cozinha que vai ser remodelada desaparece em meia hora de obra. Não há como o reconstituir. As fábricas que produziram aqueles padrões específicos fecharam há décadas. As fábricas com grande tradição como a Viúva Lamego e a Sant'Anna são referências, mas não há muitas lojas que adquiram azulejos antigos nem tão-pouco que façam avaliações rigorosas. E mesmo as fábricas que ainda trabalham com técnicas ancestrais, como a Fábrica de Sant'Anna, fundada em 1741 e ainda em funcionamento na Ajuda, podem reproduzir padrões históricos mas não podem reproduzir a peça original, com a sua história, a sua pátina, a sua datação.

O que se perde não é substituível. É apenas ausente.

O problema começa antes da obra. Começa na visita, quando o comprador olha para uma parede de azulejos antigos e não tem vocabulário para perceber o que está a ver. Se são pombalinos do século XVIII ou reproduções do século XX. Se são de fábrica identificável ou de produção anónima. Se o painel tem unidade compositiva ou é uma colagem de peças de origens diferentes. Se o estado de conservação permite manutenção ou exige restauro especializado. Se há peças em falta que podem ser substituídas por originais encontrados em antiquários ou se a lacuna vai ficar permanente.

Estas perguntas não são feitas porque ninguém as ensina a fazer.

O consultor imobiliário que representa o vendedor não tem obrigação de as colocar. O comprador que não tem formação específica não sabe que as devia colocar. E o resultado é que casas mudam de mãos com painéis de azulejos históricos que ninguém datou, nenhum especialista avaliou, e que na remodelação seguinte desaparecem sem registo porque quem mandou fazer a obra não sabia o que estava a mandar tirar.

O mesmo raciocínio aplica-se à madeira, e aqui o argumento é ainda mais estrutural porque tem uma dimensão de escassez física que não é recuperável por nenhuma decisão de mercado ou de política pública.

Os soalhos de pinho manso que existem nas casas históricas de Lisboa foram feitos com madeira cortada de pinhais que tinham décadas de crescimento acumulado. A espessura das tábuas, a largura, a densidade da madeira, são o resultado directo de árvores que cresceram durante muito tempo antes de serem cortadas. Hoje não existem pinhais em Portugal em quantidade e maturidade suficientes para produzir madeira com essas características a um preço que uma obra residencial consiga absorver. O mesmo se aplica às portadas, às portas interiores de madeira maciça, às ombreiras, aos rodapés com altura e espessura reais, e aos forros de tecto em madeira que existem em alguns interiores históricos. Estes elementos foram feitos com um recurso que existe hoje em quantidade radicalmente inferior ao que existia quando foram produzidos.

Não se trata de nostalgia nem de romantismo. Trata-se de uma realidade de mercado de matéria-prima que torna a reprodução fiel destes elementos economicamente inviável na maioria dos contextos. Quem quiser hoje um soalho de pinho maciço com a espessura e a largura dos soalhos históricos de Lisboa tem duas opções: pagar um preço que a maior parte das obras não comporta, ou aceitar uma alternativa que não é a mesma coisa. O soalho flutuante, o pinho de menor espessura, o eucalipto tratado, o composto de madeira, são materiais diferentes com comportamentos diferentes e durabilidades diferentes. Não são errados por si próprios. São errados quando substituem algo que não pode ser reposto.

Uma tábua de soalho com cem anos que está em bom estado de conservação vai aguentar mais cem anos com manutenção adequada. A alternativa que a substitui foi concebida para durar o tempo de garantia da obra.

Há ainda uma dimensão que é particularmente perturbante e que Lisboa conhece bem: há pessoas no negócio de remover azulejos antigos de fachadas de edifícios para os vender em segunda mão, o que explica porque algumas fachadas têm lacunas que se assumem como marcas do tempo mas que são, nalguns casos, resultado de furto. O que acontece nas fachadas acontece também nos interiores, com menos visibilidade e menos consequências legais imediatas. Uma remodelação mal supervisionada pode resultar em elementos de valor patrimonial real a sair pela porta da frente sem que ninguém documente ou questione.

Os estuques de tecto com decoração em relevo completam este quadro de elementos irrepetíveis. Foram feitos por artesãos cuja formação específica praticamente não existe hoje em Portugal. Há quem faça restauro de estuques históricos com qualidade, mas são poucos, trabalham por encomenda, e o custo do seu trabalho reflecte exactamente a escassez da competência. Um tecto estucado que é picado para colocar uma placa de gesso cartonado não pode ser reconstituído com o mesmo resultado. Pode ser reproduzido, aproximadamente, por quem sabe fazê-lo. Não pode ser devolvido ao que era.

As cantarias de calcário trabalhadas nas ombreiras e soleiras, com perfis que eram standard num determinado período e que hoje se encomendam por medida, e as ferragens originais das janelas e portas, em ferro forjado ou em latão trabalhado, completam um inventário de elementos que desaparecem nas remodelações e são substituídos por equivalentes de catálogo que não têm a mesma relação com o espaço nem a mesma durabilidade.

O que devia mudar é simples de enunciar e difícil de implementar: antes de comprar uma casa histórica, antes de contratar uma obra, antes de aprovar um projecto de remodelação, devia existir uma avaliação dos elementos interiores por alguém com competência específica para a fazer. Um arquitecto com experiência em reabilitação ou um especialista em artes decorativas que permita ao proprietário saber o que tem antes de decidir o que fazer com isso.

Esta avaliação tem um custo. É sempre inferior ao custo de destruir o que não tem preço.

Lisboa está cheia de casas com elementos que ninguém sabe datar, ninguém sabe avaliar, e ninguém sabe proteger. Alguns desses elementos vão sobreviver por inércia, porque o proprietário não teve tempo ou dinheiro para remodelar. Outros vão desaparecer na próxima obra, silenciosamente, sem que ninguém registe o que se perdeu.

A diferença entre os dois destinos raramente é uma questão de intenção. É quase sempre uma questão de informação.

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A casa que toda a gente quer vender mas ninguém quer comprar.