Enquanto a lei não chega, a exigência tem de vir de dentro.
O mercado residencial português vende. As transacções fecham, os valores aguentam, e há quem olhe para os números e conclua que tudo está bem. Para o sector da mediação, o contexto é favorável. E é exactamente quando o contexto é favorável que se adormece a consciência crítica.
Há uma pergunta simples que o sector não consegue responder: quantos somos? Não existe um número fiável de agentes imobiliários activos em Portugal. Não se sabe se a mediação está presente em 50% ou 60% das transacções. Não se sabe se abrem mais agências do que fecham, se se emitem mais licenças AMI do que se cancelam, se os negócios fecham mais depressa ou mais devagar do que há cinco anos. O mercado cresce e o sector que o serve não tem dados sobre si próprio.
O que se sabe, por observação empírica, é que volume e insatisfação crescem juntos. Mais transacções, mais queixas. Não porque o mercado piore, mas porque há mais oportunidade para que um serviço fraco cause dano real a quem compra ou vende a casa da sua vida.
A lei que regula esta actividade tem 13 anos. Em 13 anos o mercado mudou de forma radical: os preços triplicaram em zonas de Lisboa, chegou capital estrangeiro em volume que não tinha precedente, a co-mediação generalizou-se, a escassez de oferta alterou completamente as dinâmicas de negociação. O Decreto-Lei que regula tudo isto é o mesmo. As zonas cinzentas são as mesmas. E a ausência de licenciamento individual para agentes imobiliários continua a permitir que qualquer pessoa exerça a actividade associada a um AMI sem formação obrigatória, sem exame de acesso, e sem consequências proporcionais se agir de forma incorrecta.
O resultado prático é um sector onde a distância entre o melhor e o pior profissional é enorme, onde o cliente não tem ferramentas para distinguir um do outro antes de assinar, e onde quem trabalha bem carrega o peso reputacional de quem trabalha mal.
Uma nova lei resolveria parte disto. Formação obrigatória com base jurídica e fiscal sólida, exame de acesso, formação contínua, regras contratuais mais claras sobre o que é obrigação do mediador e direito do cliente, transparência obrigatória sobre partilhas de comissão. São medidas que existem noutros países e que não são invenção. São condições mínimas para que uma profissão funcione com credibilidade.
Fala-se numa nova lei há meses. Pode chegar. E quando chegar ficará claro se Portugal optou pela profissionalização ou pela massificação, se a prioridade foi elevar o piso ou manter a porta aberta a todos sem critério.
Até lá, o problema não desaparece por esperar. E a resposta não pode ser só legislativa.
Aos consultores
Cada processo mal conduzido por um colega é um problema de todos. A desconfiança que um cliente traz para uma primeira reunião não nasceu do nada: nasceu de uma experiência anterior com alguém que não soube o que estava a fazer, que escondeu informação por conveniência, que prometeu um preço de venda para ganhar o contrato de mediação imobiliária e depois pressionou para baixar. Esse cliente vai tratar todos os consultores com a mesma cautela até que alguém prove o contrário.
Manter-se actualizado não é mérito. É obrigação básica de quem exerce uma actividade onde o cliente toma decisões financeiras das mais significativas da sua vida com base na informação que o consultor fornece.
Exigir boas práticas dentro das agências e entre colegas é desconfortável. É também a única forma de construir um ambiente profissional onde as más práticas têm custo real. Um sector que normaliza o que não devia ser normal não pode depois surpreender-se por não ser levado a sério.
A quem compra e vende
Há consultores excepcionais em Portugal. Não são identificáveis pelo número de vendas nem pelos prémios anuais, que medem volume e não qualidade. Identificam-se pela forma como conduzem a primeira conversa, pelo que perguntam antes de responder, pela clareza com que explicam o que fazem e o que não fazem, pela disposição para dizer o que é inconveniente quando é isso que a situação exige.
Num mercado com tantos profissionais, substituir um mau consultor por um bom não é difícil. O que é difícil é saber exactamente o que procurar. A resposta não está nos rankings. Está na qualidade das perguntas que o consultor faz na primeira reunião, e no que faz quando as respostas não são as que o cliente queria ouvir.
Aceitar menos do que isto tem um custo. E esse custo raramente aparece na escritura.