O que os compradores internacionais notam nos primeiros cinco minutos que os portugueses ignoram

Há um padrão que se repete com uma regularidade que já não me surpreende: o que o comprador internacional nota primeiro não é o que o proprietário pensa que é o ponto forte do imóvel.

O comprador internacional entra num apartamento e, nos primeiros cinco minutos, avalia o isolamento acústico. Não pergunta por ele, testa-o. Fecha uma porta e fica em silêncio. Ouve. Se ouvir o elevador, os vizinhos, a rua, já registou.

Mesmo havendo elevador, pede para subir ou descer as escadas. Não por exercício, mas para ver o que ninguém mostra nas fotografias. O estado dos degraus, a limpeza das paredes da caixa de escadas, a forma como a luz chega aos patamares intermédios, os pombos no parapeito do terceiro andar que a brochura não menciona. As escadas dizem o que o hall de entrada, muitas vezes arranjado para impressionar, não diz.

Apaga as luzes. Em pleno dia, apaga todas as luzes artificiais do apartamento e fica ali parado, a ver. Porque quer saber qual é a luz real da casa, não a que o home staging criou com candeeiros estrategicamente colocados para esconder o quarto que não recebe sol ou a sala que precisa de luz artificial ao fim da tarde de Inverno.

Faz perguntas sobre obras. Não de forma casual, com detalhe. O que foi feito, em que data, com que empresa, com que materiais. Quer perceber o que está por baixo do que vê. Uma cozinha nova pode esconder canalização antiga. Um tecto pintado pode esconder infiltrações resolvidas a meio. O histórico de obras é o diário clínico do imóvel, e quem já comprou mal uma vez sabe lê-lo.

E pergunta sobre a zona e sobre a vizinhança, não sobre os restaurantes e os jardins que aparecem em qualquer artigo de lifestyle sobre o bairro. Pergunta quem mora ali. Se há obras previstas na rua ou nos edifícios em redor. Se a zona mudou nos últimos anos e em que direcção. Se há ruído nocturno. Se o bairro é de residentes ou de turistas. Quer perceber não a casa que vai comprar, mas a vida que vai ter.

O comprador português foca-se na área, na localização, no preço. O comprador internacional foca-se no que vai viver. O meu trabalho, muitas vezes, é traduzir uma coisa na outra.

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