As águas de Lisboa

Há uma experiência que qualquer pessoa pode fazer em Lisboa sem se aperceber que a está a fazer. Caminhar pela Rua de São Bento até ao Largo do Rato. Descer a Rua do Século em direcção ao Cais do Sodré. Percorrer a Avenida Almirante Reis desde o Intendente até ao Martim Moniz. Em cada um destes trajectos, quem caminha está a seguir o leito de um rio que já não existe.

Lisboa foi construída sobre água. Não apenas junto ao Tejo, que é a relação com a água que toda a gente conhece e que define a imagem da cidade. Mas também sobre uma rede de ribeiras, riachos e linhas de água que desciam das colinas em direcção ao estuário e que durante séculos definiram a forma como a cidade cresceu, onde se instalava, quais os caminhos que seguia e quais os lugares que evitava.

Essa água desapareceu. Não secou. Foi enterrada.

As ribeiras de Lisboa

A principal linha de água que Lisboa perdeu é a Ribeira de Valverde, que descia da zona do actual Campo Mártires da Pátria, atravessava o que é hoje o Intendente e a Mouraria, e desaguava no Tejo na zona do Rossio do Mar, que era uma enseada que existia onde hoje está a Praça da Figueira. Esta ribeira deu o nome a vários lugares que ainda hoje existem, como a Rua da Palma, que seguia a sua margem, e a sua presença moldou o crescimento dos bairros que lhe eram adjacentes de formas que ainda são visíveis nas plantas da cidade actual.

A Ribeira de Arroios descia da zona de Arroios em direcção ao Intendente, onde confluía com a Valverde. O nome do bairro, Arroios, é precisamente o plural de arroio, palavra que designa um curso de água pequeno. O bairro tem o nome da água que o atravessava e que deixou de existir muito antes de qualquer residente actual se ter mudado para ali.

A Ribeira de Alcântara, cujo nome vem da palavra árabe para ponte, atravessava o vale de Alcântara em direcção ao Tejo e foi durante séculos o obstáculo natural que separava Lisboa de Belém. A ponte que lhe deu o nome existiu onde hoje existe o aterro e a via rápida. O riacho que a justificava foi canalizado e enterrado no século XIX como parte das obras de modernização da cidade.

O Rio de Baixo, que descia da zona de Campo de Ourique em direcção ao Cais do Sodré, deu o nome à Rua do Século que segue o seu traçado, e a sua bacia hidrográfica é a razão pela qual as caves de muitos edifícios da zona continuam a ter problemas de humidade que nenhuma obra de impermeabilização resolve completamente. A água continua a estar lá por baixo. Continua a circular. Simplesmente não é visível.

Porque foi enterrada

A decisão de enterrar as ribeiras de Lisboa não foi tomada de uma vez nem por uma única razão. Foi um processo que se estendeu ao longo de dois séculos, acelerado em diferentes momentos por diferentes pressões.

A primeira pressão foi sanitária. As ribeiras urbanas de Lisboa, especialmente a partir do século XVIII, tinham-se tornado receptáculos de resíduos domésticos e industriais que as tornavam focos de contaminação e de doença. Em Lisboa, como em todas as cidades europeias que cresceram rapidamente neste período, a relação entre a água parada ou lenta e as epidemias de cólera e de febre tifóide era conhecida e temida. Enterrar os cursos de água e substituí-los por sistemas de esgotos fechados era uma medida de saúde pública que as cidades mais avançadas da Europa tinham já adoptado e que Lisboa foi seguindo progressivamente.

A segunda pressão foi urbanística. As ribeiras ocupavam espaço que a cidade em crescimento precisava. Os seus vales criavam obstáculos à circulação e à construção que a Lisboa do século XIX, com o plano de Ressano Garcia a empurrar a cidade para norte, precisava de resolver. Enterrar a ribeira e construir por cima era mais barato e mais rápido do que contorná-la ou construir sobre ela.

A terceira pressão foi estética. A Lisboa moderna que o século XIX queria ser não tinha lugar para ribeiras sujas e malcheirosas no seu centro. A imagem de uma capital europeia contemporânea passava por avenidas largas, esgotos enterrados, e superfícies planas onde os carros e as pessoas circulavam sem os obstáculos que a topografia natural criava.

O que ficou

O que ficou das ribeiras de Lisboa não é visível mas é real e tem consequências práticas que o mercado imobiliário raramente discute com a clareza que merecia.

A primeira consequência é topográfica. Os vales que as ribeiras criaram ainda existem, moldados agora por ruas e edifícios em vez de água e vegetação. Quem percorre Lisboa com atenção reconhece estes vales na forma como as ruas descem e sobem, na forma como os bairros se organizam em torno de depressões no terreno, na forma como determinadas zonas têm sempre uma sensação diferente das colinas que as rodeiam.

A segunda consequência é hidrológica. A água que as ribeiras transportavam não desapareceu. Continua a descer das colinas quando chove, continua a circular pelos aquíferos que existem sob a cidade, continua a procurar os caminhos que sempre percorreu. Quando chove intensamente em Lisboa, as zonas que ficam nos antigos leitos das ribeiras são as que inundam mais facilmente e mais profundamente. Não porque o sistema de drenagem seja necessariamente mau, mas porque a água tem memória topográfica e regressa aos lugares por onde sempre passou quando o volume excede o que o sistema consegue absorver.

Esta informação tem valor directo para quem compra em Lisboa. As zonas baixas junto às antigas linhas de água, facilmente identificáveis em mapas históricos que estão disponíveis online, têm um perfil de risco de inundação diferente das zonas elevadas. Este risco não é constante nem inevitável, mas é real e devia ser parte da análise de qualquer compra em zonas que incluem ou estão próximas de antigos leitos de ribeira.

A terceira consequência é patrimonial, no sentido mais literal. Os aquíferos que existem sob as antigas linhas de água de Lisboa são a razão pela qual determinadas caves e pisos inferiores têm problemas de humidade que surgem ciclicamente independentemente das obras que são feitas. A água está lá. Circula a profundidades variáveis. E em determinadas condições de nível freático, que variam com a estação e com a pluviosidade, essa água exerce pressão sobre as fundações e os pisos enterrados dos edifícios que foram construídos por cima.

Nenhum destes problemas é insuperável. Mas nenhum deles desaparece porque ninguém os mencionou na visita.

O que a água ensina sobre a cidade

Há uma forma de olhar para Lisboa que se torna disponível quando se conhece a rede de água que existia antes da cidade a enterrar. As ruas que parecem seguir trajectos arbitrários revelam-se afluentes de ribeiras. As depressões entre colinas que parecem acidentes topográficos revelam-se antigos vales fluviais. Os bairros que têm nomes que incluem palavras relacionadas com água, Arroios, Alcântara, Ribeira, revelam a geografia que os justificou.

Lisboa foi construída sobre água e em torno de água muito antes de ser construída sobre o aterro que ganhou ao Tejo. Compreender esta dimensão da cidade não é um exercício de história académica. É uma forma de perceber porque a cidade é como é, porque certos lugares têm as características que têm, e porque determinadas decisões de construção e de localização que parecem arbitrárias têm uma lógica que vem de muito antes de qualquer plano urbanístico.

A água que foi enterrada não deixou de existir. Continua a definir a cidade, de formas que quem compra nela devia conhecer.

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