Há um exercício simples que qualquer pessoa que viva em Lisboa pode fazer. Sair do metro no Rossio, olhar para a fachada da estação, e perguntar a quem está ao lado quem a projectou. A resposta, quase invariavelmente, é um encolher de ombros. A fachada neomanuelina da Estação do Rossio é uma das imagens mais reconhecíveis de Lisboa, reproduzida em postais, fotografada por milhões de turistas, usada como símbolo da cidade em contextos que vão do marketing turístico à cultura popular. O nome do arquitecto que a desenhou é, para a maioria das pessoas, completamente desconhecido.
José Luís Monteiro nasceu em Lisboa em 1848 e morreu na mesma cidade em 1942, com noventa e três anos. Uma vida longa o suficiente para ver a cidade que tinha ajudado a construir transformar-se várias vezes à sua volta, e para sobreviver a quase todos os seus contemporâneos. Estudou na Real Academia de Belas Artes de Lisboa desde os doze anos, e com vinte e quatro partiu para Paris, para a École Nationale et Spéciale des Beaux Arts, a escola mais influente do mundo na formação de arquitectos na segunda metade do século XIX. Ficou em Paris cinco anos, viajou pela Europa Central, por Itália, por Espanha, encheu cadernos de apontamentos e aguarelas sobre o que via, e voltou a Lisboa em 1880 com trinta e dois anos e uma formação que poucos arquitectos portugueses da sua geração tinham.
O que fez nos anos seguintes define o que é possível construir numa carreira quando se tem competência, diversidade, e a capacidade de trabalhar simultaneamente em múltiplas frentes sem perder a qualidade em nenhuma.
Em 1880 entrou para a Câmara Municipal de Lisboa como arquitecto chefe da primeira secção da Repartição Técnica. Em 1881 começou a leccionar arquitectura civil na Escola de Belas Artes, cadeira que regeu durante quarenta e oito anos, até 1929. Entre 1912 e 1929 foi também director da escola. Trabalhou para a câmara, ensinou na escola, e manteve em paralelo uma actividade de projecto independente que produziu alguns dos edifícios mais significativos de Lisboa do final do século XIX e início do século XX.
Esta tríplice presença, como técnico municipal, como professor e como projectista independente, é o que distingue José Luís Monteiro de outros arquitectos do seu tempo. Não era apenas um construtor de edifícios. Era um formador de arquitectos, e a influência que exerceu através do ensino multiplicou-se em toda a geração que aprendeu arquitectura com ele em Lisboa nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do XX.
A Estação do Rossio é a obra pela qual é mais conhecido, e é de facto uma obra notável, mas por razões que vão além da fachada neomanuelina que toda a gente vê.
O projecto foi encomendado a Monteiro em 1886, com uma condicionante imposta que outro arquitecto poderia ter vivido como uma limitação: a estação tinha de adoptar o estilo neomanuelino, o revivalismo de um estilo genuinamente português que estava em voga no Portugal da época. Monteiro não resistiu à condicionante nem a tratou como um exercício decorativo superficial. Fez dela o ponto de partida de uma solução arquitectónica que resolvia um problema urbano complexo com uma elegância que a fachada esconde mas que a planta revela.
O terreno da estação tinha um desnível significativo entre o nível das plataformas ferroviárias e o nível da praça exterior, o actual Largo do Regedor. Monteiro resolveu esse desnível através do próprio edifício, usando a arquitectura para absorver a diferença de cotas de uma forma que quem entra e sai da estação experimenta sem necessariamente perceber que está a percorrer uma solução técnica sofisticada. A mestria não está apenas na fachada. Está na relação entre o edifício e a cidade, na forma como a estação se insere no tecido urbano em vez de o interromper.
Dentro, Monteiro introduziu algo que Lisboa ainda não tinha visto: uma nave central em ferro e vidro, com a estrutura metálica a suportar uma cobertura que inundava o espaço de luz natural. Era a aplicação à arquitectura portuguesa de uma tecnologia que Paris e Londres já usavam mas que em Portugal era uma novidade. José Luís Monteiro é considerado o introdutor do ferro forjado na construção portuguesa, e a nave da Estação do Rossio é o exemplo mais visível e mais monumental dessa introdução.
O Hotel Avenida Palace, construído entre 1890 e 1892 imediatamente contíguo à estação, é outro trabalho seu que Lisboa usa todos os dias sem o associar ao mesmo arquitecto. A relação física e conceptual entre a estação e o hotel, dois edifícios que funcionam como um conjunto articulado na frente da Praça dos Restauradores, é intencional e resulta de um trabalho que só foi possível porque o mesmo arquitecto estava a pensar os dois edifícios em simultâneo.
A Sociedade de Geografia de Lisboa, na Rua das Portas de Santo Antão, é outra obra sua, com o Salão Portugal que continua a ser um dos interiores mais ricos de Lisboa oitocentista. Os portões de ferro forjado dos Paços do Concelho, que definiam a frontaria do edifício da câmara. Os candeeiros do Monumento aos Restauradores, que iluminam a praça até hoje. A Igreja dos Anjos, inaugurada em 1910. O Quartel do Batalhão de Sapadores Bombeiros na Avenida D. Carlos I.
Uma lista que vai de equipamentos de mobilidade a equipamentos religiosos, de edifícios institucionais a mobiliário urbano, de arquitectura de prestígio a arquitectura de serviço. É a lista de um arquitecto que não escolhia os projectos pelo prestígio mas pela exigência, e que em cada um aplicava o mesmo rigor independentemente da escala ou do programa.
Há um episódio da sua carreira que revela algo sobre o contexto em que trabalhava. Quando projectou a Estação do Rossio com a sua nave em ferro e vidro, estava a usar um material e uma tecnologia que eram então novidade em Portugal. A decisão de introduzir o ferro na construção portuguesa não foi apenas técnica. Foi uma posição sobre o que a arquitectura portuguesa devia ser, sobre como podia absorver as inovações que a Europa estava a desenvolver sem perder a sua identidade. A fachada neomanuelina e a nave em ferro não são uma contradição. São a síntese de um arquitecto que sabia como dialogar com a tradição e com a modernidade ao mesmo tempo, sem sacrificar uma à outra.
Esta capacidade de síntese é o que torna José Luís Monteiro uma figura mais interessante do que a mera lista das suas obras sugere. Não era um arquitecto de um único estilo nem de uma única ideia. Era um arquitecto com uma formação sólida o suficiente para responder a problemas diferentes com soluções diferentes, mantendo em cada uma delas uma qualidade que o tempo tem confirmado.
Morreu em 1942, com noventa e três anos, tendo ensinado arquitectura durante quase cinco décadas e construído alguns dos edifícios mais presentes no quotidiano de Lisboa. A geração de arquitectos que formou construiu a cidade nas décadas que se seguiram à sua vida activa. A influência que exerceu multiplicou-se de formas que não são fáceis de mapear mas que estão presentes na arquitectura lisboeta de um período longo e decisivo.
A Estação do Rossio continua a ser a sua obra mais reconhecida. Continua a não ser reconhecida com o seu nome. Lisboa usa-a todos os dias, como usa tantas outras coisas que não sabe a quem deve.