O que o Portugal rural precisa mesmo é de mais um boutique hotel.

Existe uma frase que se repete em reuniões, em eventos de turismo, em candidaturas a fundos e em conversas de networking com vista para o Tejo: "o interior tem um potencial imenso por explorar."

Tem. A pergunta é para quem.

Antes de responder, é preciso perceber como funciona o dinheiro.

Portugal tem acesso a fundos europeus, dinheiro da União Europeia distribuído pelos estados-membros para promover desenvolvimento económico e coesão territorial. Uma parte significativa desse dinheiro foi direccionada para turismo rural. O mecanismo é simples: um investidor privado quer construir ou reabilitar um espaço para turismo no interior do país, candidata-se a um programa de apoio, e se o projecto for aprovado, o Estado, com dinheiro europeu, paga uma parte substancial da conta.

Quanto? Até 80% do investimento total em territórios do interior. Nalguns programas, a taxa base é de 60% e pode chegar a 90% com as majorações aplicáveis a zonas rurais de baixa densidade.

Dito de outra forma: um investidor privado compra uma quinta no Alentejo, decide transformá-la em boutique hotel com piscina de borda infinita e pequeno-almoço em louça artesanal, e pode pagar apenas 10% a 20% do custo total do projecto. O restante é pago pelo contribuinte europeu e português, sem direito a retorno, sem participação nos lucros, sem nada. É dinheiro que não volta.

Isto chama-se apoio a fundo perdido. Fundo perdido significa exactamente o que parece: perde-se.

Agora olhemos para o contexto onde este dinheiro está a ser aplicado.

Na última década, cerca de um milhão de habitantes transferiram-se das zonas rurais para as cidades, num dos maiores êxodos rurais da história do país. Lisboa e Porto concentram hoje cerca de 45% de toda a população portuguesa. No interior, fecham escolas porque não há crianças. Fecham centros de saúde porque não há utentes em número suficiente para justificar o custo. Fecham correios, linhas de autocarro, farmácias. Cerca de 40% da população portuguesa com mais de 65 anos está sozinha durante oito horas ou mais por dia. São os que ficaram, os que não tiveram para onde ir ou não quiseram sair.

É neste território, esvaziado e envelhecido, que o sistema decide investir em alojamentos turísticos de quatro e cinco estrelas para turistas estrangeiros que vêm passar o fim-de-semana.

A justificação existe e é apresentada sempre com gráficos: o turismo cria emprego local, gera receita, dinamiza a economia, valoriza o património, contribui para fixar população. Cada candidatura aprovada tem um plano de negócios que demonstra tudo isto com precisão decimal.

O que os planos de negócios não demonstram, porque não é pedido, é o seguinte: quantos dos empregos criados são sazonais e de baixa remuneração? Quantos dos benefícios económicos ficam de facto na região e quantos saem para os accionistas do projecto, que frequentemente não são locais nem portugueses? Quem são os compradores das quintas reabilitadas com dinheiro público?

Um cliente de Londres abriu um boutique hotel sustentável no Alentejo, conta uma consultora de investimento no seu site, com orgulho justificado do ponto de vista do negócio. O cliente de Londres identificou uma oportunidade: terra barata, fundos europeus disponíveis, mercado de turismo de luxo em crescimento. Fez as contas e as contas fecharam, em grande parte porque uma fatia considerável do investimento inicial foi paga por outros.

O Alentejo ficou com mais um boutique hotel. A população local ficou com algumas vagas de emprego para fazer camas e servir pequenos-almoços a duzentos euros por noite. O cliente de Londres ficou com o activo, valorizado com dinheiro público.

A autenticidade rural, neste modelo, é um produto. A aldeia abandonada é o cenário. A ruralidade é uma estética que se vende a trezentos euros a noite.

Ninguém está a perguntar se esse mesmo dinheiro aplicado de outra forma teria outro resultado. Se creches no interior fixam mais famílias jovens do que piscinas de borda infinita. Se transportes públicos funcionais permitem que as pessoas vivam fora das cidades sem ficarem isoladas. Se apoios directos a agricultores de pequena escala criam mais emprego local e mais distribuição de rendimento do que um hotel com doze quartos e uma carta de vinhos cuidada.

Essas perguntas não têm resposta que caiba num formulário de candidatura aprovável.

O boutique hotel tem. Tem receita projectada, taxa de ocupação estimada, número de postos de trabalho equivalente, impacto ambiental mitigado pelos painéis solares que também são elegíveis para financiamento. Tem tudo o que o sistema precisa para dizer que o dinheiro foi bem aplicado, que o desenvolvimento regional está a acontecer, que o interior está a ser dinamizado.

O que o sistema não mede é o que ficou por fazer. As aldeias que continuam a esvaziar-se à volta do boutique hotel. As pessoas que continuam a sair. Os serviços que continuam a fechar. A terra que continua a ser comprada por quem tem capital disponível e acesso a consultoras que sabem preencher os formulários certos.

Portugal tem um problema estrutural no interior que existe há décadas e que nenhum governo resolveu com seriedade. A resposta que o sistema encontrou foi transformar esse problema num produto turístico e financiar a sua comercialização com dinheiro público.

É engenhoso. É rentável para quem sabe navegá-lo.

E não resolve absolutamente nada do que precisa de ser resolvido.

Mas fica bem nas brochuras. E as brochuras, como se sabe, são elegíveis para financiamento.

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