O caro qualquer um com dinheiro compra. O luxo devia ser uma praia de resort com reserva de admissão
O dinheiro democratizou-se. Bem, isso é bom. Mas houve um efeito secundário que ninguém antecipou, ou que toda a gente fingiu não ver: quando o dinheiro chegou a todo o lado, o luxo foi atrás. E o luxo não devia ter ido.
Deixem-me explicar.
Caro é um atributo de preço. Qualquer pessoa com capital suficiente compra o que é caro. Não é preciso saber nada, não é preciso ter visto nada, não é preciso ter desenvolvido ao longo dos anos aquela capacidade específica de entrar num espaço e perceber imediatamente, antes de qualquer explicação, antes de qualquer brochura, que ali foi feito algo extraordinário. Basta ter o número certo na conta.
Luxo é outra coisa. Luxo pressupõe reconhecimento. E o reconhecimento pressupõe referência, ter tocado no bom o suficiente para saber distingui-lo do que apenas custa muito. É uma competência. Aprende-se. Demora.
Por isso digo que o luxo devia ser uma praia de resort com lista de espera e critério de admissão. Não para excluir quem tem menos dinheiro, isso seria apenas snobismo, e snobismo é o oposto de elegância. Mas para proteger o conceito de quem tem muito dinheiro e pouca referência. De quem transforma luxo numa categoria de consumo como outra qualquer, onde o valor se mede em números e não em discernimento.
Há resorts no mundo onde não entras sem reserva, sem apresentação, por vezes sem carta de referência. Não porque sejam arrogantes. Porque perceberam que a experiência que oferecem só existe se o ambiente for protegido, se os outros hóspedes também souberem estar, também souberem apreciar, também trouxerem para aquele espaço o mesmo nível de exigência silenciosa que o espaço exige de si próprio.
O imóvel certo, para o comprador certo, com a consultora certa a fazer a introdução. Não é uma questão de dinheiro. Nunca foi.