O arquitecto que Lisboa perdeu cedo demais.

Miguel Ventura Terra nasceu em 1866 numa aldeia do Minho, Seixas, e morreu em Lisboa em 1919, com cinquenta e dois anos. Entre estes dois pontos existe uma carreira de vinte e três anos de trabalho activo que produziu alguns dos edifícios mais importantes da Lisboa do final do século XIX e início do século XX, uma influência sobre a arquitectura portuguesa que vai muito além da soma das suas obras, e uma pergunta que fica sempre por responder: o que teria feito com mais tempo.

A formação foi clássica para um arquitecto ambicioso do seu tempo. Estudou na Academia Portuense de Belas Artes, foi bolseiro em Paris onde frequentou a École des Beaux Arts e foi discípulo de Victor Laloux, o arquitecto que projectou a Gare de Orsay. Esta filiação não é um detalhe biográfico. É uma chave para entender o que Ventura Terra trouxe para Portugal quando voltou em 1896: uma visão da arquitectura que tinha aprendido com um dos grandes mestres do ecletismo francês, numa escola que era a mais influente do mundo na formação de arquitectos nessa época, numa cidade que estava a reinventar a forma como se construíam espaços públicos, edifícios institucionais e habitação de prestígio.

Chegou a Lisboa com trinta anos e um diploma que poucos arquitectos portugueses tinham. O que fez nos meses seguintes diz muito sobre o que era capaz.

Ainda em 1896, ganhou o concurso para a reconstrução da Câmara dos Deputados, o edifício que tinha sido destruído por um incêndio em 1895 e que precisava de ser reconstituído com uma linguagem que fosse digna da instituição que ia albergar. O resultado é o que hoje é a Assembleia da República, na Rua de São Bento: a escadaria nobre, a Sala dos Passos Perdidos, a Câmara dos Deputados. É uma obra de chegada, feita por alguém que ainda estava a estabelecer a sua reputação em Lisboa, e que revela imediatamente o que o distinguia: uma monumentalidade que não era excessiva, uma contenção que era sofisticação e não limitação, e uma capacidade de resolver problemas de programa com soluções formais que tinham elegância real.

A carreira que se seguiu foi produtiva de uma forma que poucos arquitectos conseguem em vinte anos.

Os liceus são talvez o conjunto de obras que melhor define o impacto social do seu trabalho. O Liceu Camões, inaugurado em 1907. O Liceu Pedro Nunes, de 1909. O Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, cujo projecto é de 1913 embora a conclusão tenha sido posterior. Três edifícios escolares que definiram um padrão de arquitectura para a educação pública em Portugal, com espaços pensados para o que a pedagogia da época exigia, com fachadas que comunicavam a dignidade da instituição que representavam, e com uma qualidade de construção que o tempo tem confirmado. Que os três existam ainda, que continuem a funcionar como escolas, que sejam edifícios que os estudantes que neles passam anos reconhecem como especiais mesmo que não tenham vocabulário para o nomear, é a confirmação mais concreta do que uma boa arquitectura pode fazer pela vida das pessoas.

A Maternidade Alfredo da Costa, de 1908, é outro equipamento que Lisboa usa todos os dias sem associar ao mesmo arquitecto. Um edifício de saúde que foi pensado com uma lógica que ia além da funcionalidade estrita, onde a qualidade dos espaços era entendida como parte do serviço prestado às pessoas que os habitavam. Esta ideia, que parece óbvia mas que raramente presidiu à construção de equipamentos de saúde em Portugal, é visível na forma como o edifício trata a luz, a circulação e a relação entre os espaços.

O Teatro Politeama, o Banco Totta e Açores na Rua do Ouro, que foi a primeira intervenção moderna na Baixa Pombalina, a Sinagoga de Lisboa na Rua Alexandre Herculano, que projectou ao mesmo tempo que a sua própria casa na mesma rua. Esta última ganhou o Prémio Valmor em 1903, o segundo da história do prémio, e foi legada por Ventura Terra às escolas de Belas Artes de Lisboa e do Porto, com o rendimento destinado a bolsas para estudantes de arquitectura sem meios. Um gesto que revela algo sobre o homem para além do arquitecto.

Ao todo, ganhou quatro Prémios Valmor, em 1903, 1906, 1909, e 1911, e uma menção honrosa em 1913. É um recorde que diz tudo sobre a consistência de uma produção que se manteve a um nível elevado ao longo de toda a carreira, sem os altos e baixos que são comuns em percursos longos.

Mas Ventura Terra não era apenas um projectista. Era um arquitecto com uma visão sobre o que a profissão devia ser e sobre o papel que a arquitectura devia ter na cidade e na sociedade.

Foi um dos fundadores da Sociedade dos Arquitectos Portugueses, em 1903, e o seu primeiro presidente. Em 1908 e novamente em 1917, foi vereador da Câmara Municipal de Lisboa, onde assinou planos de melhoramento da zona ribeirinha e um projecto urbanístico para o Parque Eduardo VII que nunca foi completamente realizado mas que revelava uma capacidade de pensar a cidade a uma escala que ia além do edifício individual. Em 1915, elaborou o plano de urbanização do Funchal, que definiu o crescimento da cidade madeirense nas décadas seguintes.

Era também um arquitecto consciente do momento em que vivia. As suas fachadas assimétricas, o uso de novos materiais, a monumentalidade que era real mas nunca ostensiva, reflectem uma sensibilidade que estava a tentar encontrar uma linguagem para uma época de transição, onde o ecletismo oitocentista estava a esgotar-se mas o modernismo ainda não tinha chegado com força suficiente para substituí-lo. Ventura Terra habitava esse espaço de transição com mais elegância do que a maioria dos seus contemporâneos.

Morreu em 1919, na sua própria casa da Rua Alexandre Herculano. A casa que tinha ganho o Prémio Valmor e que tinha legado às escolas de arquitectura. Morreu antes de ver o que a arquitectura portuguesa ia ser nas décadas seguintes, antes do modernismo que estava a chegar, antes do Estado Novo que ia deformar tudo, antes da democracia que ia tentar reconstruir o que tinha sido deformado.

Tinha cinquenta e dois anos. Com o ritmo a que trabalhava e a qualidade que mantinha, podia ter dado mais vinte ou trinta anos de obra a Lisboa. Podia ter sido o arquitecto que fez a ponte entre o ecletismo que dominava quando começou e o modernismo que dominaria quando chegou. Não teve tempo.

O que ficou é suficiente para o tornar uma das figuras mais importantes da arquitectura portuguesa do seu período. Mas a sensação, quando se olha para o que fez em vinte e três anos, é sempre a mesma: isto é o trabalho de alguém que estava no início do que podia ter sido. E que Lisboa perdeu antes de o ver completar.

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