Ninguém vende. E esse é o problema que ninguém fala.

Há uma pergunta que surge naturalmente quando se olha para os preços do mercado em Lisboa e não se percebe como chegámos aqui: se as casas estão tão caras, porque é que não aparecem mais à venda? Num mercado com preços altos, a lógica diz que quem tem devia querer vender. A lógica diz que a oferta devia aumentar.

A oferta não aumentou. E o preço continua a subir.

Para perceber porquê, é preciso perceber quem são os proprietários e o que os motiva, ou o que os impede, de vender. Porque há razões fiscais, razões familiares, razões de mercado. Mas há uma razão que raramente aparece na análise e que, na prática, é das que mais paralisa: o medo.

O medo que ninguém admite

As pessoas continuam a precisar de mudar de casa. Famílias que cresceram, casais que se separaram, profissionais que mudaram de emprego, pessoas que envelheceram e precisam de outro tipo de espaço. A necessidade existe. A vontade existe. O que falha é a coragem de começar.

Porque começar, neste mercado, significa vender primeiro. E vender primeiro significa ficar sem casa antes de ter outra. E ficar sem casa antes de ter outra, num mercado onde as notícias falam todos os dias de crise de habitação, de escassez, de preços que sobem, significa arriscar ficar sem nada.

O resultado é a paralisia. Proprietários que precisam de mudar e que não avançam. Que acompanham o mercado há meses, que visitam casas sem compromisso, que pensam em vender mas que não põem a casa no mercado porque primeiro precisam de encontrar alternativa. E que não encontram alternativa porque o mercado tem pouca oferta. E o mercado tem pouca oferta porque toda a gente está à espera de encontrar antes de vender.

É um bloqueio circular que se auto-alimenta.

A ordem invertida que cria risco desnecessário

Quando o medo domina, a sequência natural da transacção inverte-se. Em vez de vender e depois comprar, tenta-se comprar e só depois vender. Parece mais seguro. Na prática, cria uma série de problemas que a ordem correcta não criaria.

Comprar antes de vender significa comprometer capital que ainda não existe. Significa fazer propostas condicionadas à venda da casa actual, o que enfraquece a posição negocial de forma significativa. Significa gerir dois processos em simultâneo com prazos que raramente se alinham sem esforço deliberado. Significa pagar duas prestações ao mesmo tempo se os timings não fecharem. Significa, muitas vezes, vender a correr e em mau momento porque a escritura da compra está marcada e a venda ainda não fechou.

A pressa de quem vende forçado é visível no mercado. Aceita-se menos. Aceita-se mais depressa. Aceita-se condições que numa venda planeada nunca se aceitariam.

O que as notícias fizeram ao comportamento

A cobertura mediática da crise de habitação em Portugal é, em grande parte, real e necessária. O problema existe, tem consequências humanas sérias e merece atenção pública.

Mas tem um efeito secundário que não é discutido: amplifica o medo de quem já tem casa a um ponto que paralisa decisões que seriam perfeitamente viáveis com planeamento adequado.

Quem lê todos os dias que não há casas, que os preços não param de subir, que encontrar habitação em Lisboa é quase impossível, desenvolve uma aversão ao risco que não corresponde necessariamente à realidade da sua situação específica. Não é que não existam casas. É que o ruído de fundo criou uma percepção de escassez absoluta que impede de pensar com clareza no processo concreto.

E a percepção, neste caso, tem consequências reais: mantém casas fora do mercado que estariam disponíveis se os proprietários sentissem que podiam vender com segurança.

O que é possível fazer

A ordem correcta da transacção, vender antes de comprar, é mais segura do que parece quando é bem planeada. Implica perceber o valor real da casa antes de a pôr no mercado. Implica ter uma ideia clara do que se procura e em que zonas. Implica conhecer os timings típicos de cada fase para conseguir coordenar os dois processos com margem suficiente.

Implica também aceitar que pode existir um período entre a venda e a compra que exige solução temporária de alojamento. Esse período é muitas vezes o argumento que paralisa tudo. Mas um arrendamento de transição de dois a quatro meses, com os custos que tem, é quase sempre menos penalizante do que os riscos de comprar antes de vender num mercado com esta pressão.

O bloqueio não é de mercado. É de percepção. E a percepção, com informação correcta e um processo bem estruturado, é possível de gerir.

O problema não é que as casas não existam. É que os proprietários que podiam colocá-las no mercado estão à espera de uma segurança que não vem antes de agir. Vem depois.

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